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PAULO FONTENELLE DE ARAUJO
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Texto mais recente: EM 1970 NO BRASIL



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A MÁQUINA DO TEMPO
18/04/2018
Autor(a): PAULO FONTENELLE DE ARAUJO
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A MÁQUINA DO TEMPO

               O tempo incomodava Marquinhos. Não o tempo atmosférico do calor e do frio. Incomodavam os acontecimentos, o andamento dos fatos, o presente, a atualidade.

                  Quando diziam: “Hoje em dia as coisas estão terríveis!”, ele concordava. Na verdade, o café da manhã veio intragável. E a notícia do assalto, saída do rádio – assalto a banco acontecia todos os dias –, devorava o relógio da cozinha. Seis horas e cinquenta minutos.

                  O tempo presente não atravessava a garganta. Não era possível engolir o dia 26 de março de 1971.

                  Marquinhos vivia para marcar o passado. O passado dos seus oito anos de idade. Algo distante. Às vezes ele o sentia como um balanço durante a noite.

                  Enquanto dormiam, ele retornava ao ano de 1966 ou 67. Somente naqueles anos as sensações valiam. Brotava das paredes um efeito de bem-estar e movimento. Havia a casa boa, ele sabia. Sua família funcionava ali dentro. O pai, a mãe e os tios arranjaram o Natal em 1966. Juntaram balões na festa junina de 1967.

                  O menino ria das lembranças. As matracas de plástico rodavam. As tias derramaram    os pudins naquele Natal, antes da morte da avó. Papai Noel chegou com o saco, e as crianças ganharam mil brinquedos.

                  Por que o mundo ficara ruim? O frio arrastando-se até a escola. Nem os roncos mornos dos aviões em Congonhas descongelavam os dias. Os adultos ficaram tristes. E por que a impressão de cabeças fincadas no chão?

                  E, quando subia na balança da farmácia, pesava os mesmos quarenta quilos.

                  Decidiu retornar à época das boas engrenagens. A ideia engatou-se quando viu um automóvel na contramão, acionar a ré e voltar, voltou duas quadras antes de dobrar a mão.

               Marquinhos construiria a máquina que voltaria no tempo, na contramão.   

                  A casa, aquela designada para que ele vivesse o tempo presente, possuía mil eletrodomésticos. O pai os comprara pelos tais crediários. A tevê anunciava a geladeira de 48 meses, o fogão das 36 parcelas, a televisão dos 24 pagamentos. Mas ninguém atentara para as outras hipóteses de funcionamento dessas máquinas. A operacionalidade não descrita nos manuais de instrução.

                  O menino cismou na mecânica dos utensílios. Descobriria o ponto automático. A viagem ao passado seria a informação de um botão. Quem sabe de manivelas. Bastaria acionar a ventoinha interna e pronto, o hoje seria anteontem do ano retrasado ou mais remotamente.

                  Parou na máquina de lavar roupa. Um engenho branco, entre o tanque e a parede. Leu as instruções e soletrou: en-xa-guar; cen-tri-fu-gar. Palavras bonitas. Lembravam fuga. Viagem rumo a antigos pedaços do tempo, quando a segunda-feira não se esfregava sobre os outros dias da semana.

                  Examinou o reservatório. Subiu no aparelho, e a estrutura metálica da máquina esfriou as pernas do viajante. Sim, as rótulas dos joelhos já estavam em outra dimensão.

                  Levantou a tampa. No meio havia um cilindro de ferro. Ele deveria abraçá-lo. Seu corpo giraria no escuro. No meio da água, o fluido mágico dispararia o estrondo do sabão em pó e “Omo! Total!” Marquinhos retornaria ao passado (no processo, seria lavado e torcido) e chegaria no dia da festa. Seus pais antigos elogiariam a façanha, cantariam novamente, e o viajante tomaria só um gole de quentão, menino.

                  Decidiu entrar. As pernas passaram, mas a barriga entalou. Marquinhos tornara-se um menino gordo. Os colegas da escola comentavam a falta de fôlego. Tentou primeiro a cabeça. Não houve jeito. Desistiu da máquina de lavar. Pensou na geladeira.

                  A geladeira apresentava outra dinâmica. Ele raciocinou. Examinou a vedação e pensou estar diante de uma cápsula do tempo. A jornada seria possível, contudo o tripulante passaria muito frio, pois a geladeira, antes de deslocar as camadas do espaço e tempo, rompia barreiras térmicas, conservava alimentos, fabricava gelo em forminhas e, somente depois de tantos afazeres refrigerados, levava o passageiro ao pretérito, pretérito mais que perfeito.

                  Sim, refrigeradores escondiam pequenos dinossauros em suas gavetas.    Aquilo, embalado e sem cabeça, nunca foi um frango.    A pré-história podia ser manipulada: cinco anos, cinco milhões de anos. Dependia da temperatura.

                  A certeza da viagem, contudo, chegou-lhe diante da evidência de que a lâmpada interna do aparelho apagava quando a porta fechava. O fato obviamente indicava que a função era dissolver passageiros em outra dimensão de luz.

                  O cientista calculou o espaço disponível. “Cabe uma pessoa.” Tocou as prateleiras geladas. Precisavam sair.

                  Imaginou a jornada. Sonharia com focas amestradas e descongelaria em 1967; antes, 1966.

                  A viagem no frio exigia o uso da malha de lã. Correu para apanhá-la. Procurou também o cachecol pré-histórico. Distraiu-se com outras providências e, quando retornou à cozinha, a mãe atual despejava compras sobre a mesa e recolhia pacotes de carne ao refrigerador. A carne pingou sangue.

                  A mãe do hoje impediu a viagem, apenas para sangrar a geladeira. Ele quis falar, a voz não saía. Teria que esperar o dia seguinte, pois a casa e a geladeira encheram-se de carnes estranhas.    Amanhã seria domingo.

                  Domingo passava aquele incompreensível programa de auditório pela tevê. Ali as pessoas se metiam a cantar. Tentavam cantar e ganhar a linha completa de produtos para o banho, ou um jogo de jantar para seis pessoas, ou uma televisão de 12 pagamentos.

                  Se fosse mulher, a melhor “caloura” receberia uma gargantilha de ouro, à venda na loja tal em 24 pagamentos.

                  No dia seguinte, pressentiu, estaria longe, antes de o primeiro calouro soltar a voz no palco. Foi dormir e, inexplicavelmente, acordou quase sem opções.

                  Refletiu sobre usar a televisão da sala como transporte pelos canais do tempo. A tevê transmitia um páreo direto do Jockey Club. Parou e contemplou a corrida. Cabeça por cabeça de cavalos no início. Venceu, por vários corpos de vantagem, o cavalo de número sete. Nenhuma coincidência. O vencedor desfilou para o público, enquanto o narrador calculava a estratégia do animal rumo à vitória.

                  Marquinhos percebeu que o pai e a mãe haviam saído de casa. Não explicaram o motivo da saída tática. Saída de cavalos.

                  O jóquei vencedor foi entrevistado. Um sujeito baixo, magro. Respondia as perguntas fixando os olhos em um ponto da arquibancada, atrás do repórter.

                  E somente ali Marquinhos soube que presenciara o “Grande Prêmio Brasil de 1971”. O jóquei vencedor olhava para a frente porque via o amanhã. Os jóqueis e os quadrúpedes gostam do futuro e por isso correm.

                  O futuro não chegaria. Nem havia largado.

                  Marquinhos gostava do ontem. Isso o tornava diferente dos cavalos, dos jóqueis e dos seus pais.   

                  Torceu o seletor. Deixou chuviscos no televisor, e dali saía um ruído tão primitivo, um ronco tão roncador, que somente poderia ser o chamariz para a volta.

                  Contemplou a falta de imagem na tevê. Os chuviscos soltavam    milhões de anos de formigas saltadoras. Tocou o vidro.    Atrás, retirando-se a tampa, abrir-se-ia o tubo de passagem, a piscina luminosa onde quem mergulhasse ganharia cinco, dez anos.

                  Desparafusou a proteção traseira do televisor. Examinou. Encontrou o tubo e as válvulas luminosas. Esperou a dispersão da luz no ambiente. Aguardou o derramamento das lembranças de fogueiras no jardim, bandeirolas atravessando o quintal, chapéus de palha com bigodes de carvão no rosto dos meninos. Os balões eram válvulas de papel subindo, subindo. Abraçou a tevê.   

                  Ficou assim muito tempo. As 22 polegadas do aparelho aqueceram e nada aconteceu.    Decerto havia algum interruptor, instalado pela mãe atual, que não admitia perder a novela das oito.

                  Matutou outra saída.    Encontrou muitas questões.    Os adultos resolviam questões. A mãe tingia os cabelos. Escolhia a tintura. O pai decidia tomar vinho aos domingos. A bebida tingia a língua.

                  Crianças não acertavam nem a cor das calças. Apenas remoíam os problemas, e os meninos, principalmente, viviam cheios de vermes. Isso reclamava a diretora da escola. O banheiro da escola tornara-se um intestino grosso.

                  Parou no portão de casa, examinou a rua, o atalho para o clube do bairro. Às duas horas da tarde, viu as duas empregadas da casa dos alemães indo ao baile. Elas usavam botas negras. Falavam dos namorados. “Doméstica só gosta de namorar.”                           

                  Marquinhos não entendia a namoração das mulheres. Depois as compreendeu. Queriam esquecer o trabalho exaustivo. A barriga no tanque, o umbigo pregado. Elas mexiam com vasilhames enormes. Guardavam muitos quilos de roupa suja. Sujeira encalacrada que vinha e desaparecia. A roupa voltava ao estado original.

                  Ah, não era bem a máquina de lavar, o veículo do tempo, mas as bacias da lavanderia.

                  Marcos correu até a lavanderia e separou a maior bacia da casa – assemelhava-se a um disco voador. Esse seria o transporte. Encheu a vasilha de água, vestiu seu calção de banho e imaginou que o motor para a nave deveria ser um engenho que criasse deslocamentos temporais.

               Fuçou a garagem. Examinou a ferrugem e encontrou um ferro elétrico quebrado. Bom. Ligou a tomada do eletrodoméstico no receptor perto do tanque.

               Puxou a bacia e deduziu que, se conectasse o ferro na água e se ele, Marcos, o tubo de ensaio, entrasse na bacia... algum efeito superquente iria evaporá-lo dali.

               As horas sairiam da condição sólida, mover-se-iam no sentido anti-horário, e o transportariam para o ano daquela festa, quando o tempo não precisava de máquinas e nada estava perdido.

               Marquinhos, nove anos, calouro, viajante, cientista, posicionou-se para a operação. Deixou a bacia no chão. Entrou nela descalço.    Segurou o fio do ferro com a mão esquerda. O fio curto não permitia a conexão. Não tocava a água.

                  O viajante então ajustou a bacia sobre a cadeira da garagem. Vacilou, e o ferro caiu dentro da água. A ação da corrente elétrica foi instantânea. O curto-circuito explodiu a tomada. O menino pulou longe, bateu as costas no muro e caiu no chão.

                  A viagem no tempo não aconteceu. A eletricidade mostrou-se um redutor temporal, o agente paralisante. Para sempre no ano de 1971.

                  Marquinhos permaneceu estirado no quintal. O sol sumiu no poente. Isso não significava nada. A terra girava no universo tal qual um frango no espeto. E dentro do frango as pessoas viviam. A casa girava. O sono puxava o dia de ontem. O menino acordava naquele horário. Caminhava até a escola. A sala de aula pingava a rotina    do sem fim. A gordura da merenda grudava nas camisetas. O frio das manhãs    penetrava nos ossos, gelava as pernas durante a execução do hino nacional. Todos bocejavam    o mesmo a ar quente pelas bocas.

                  Somente a língua da professora mexia-se durante a chamada. Mexia-se com a rapidez de serra elétrica:

                     – Marcos de Souza!

                  – Presente.




AUTOR:    PAULO FONTENELLE DE ARAUJO
DO LIVRO: AS CRIANÇAS DO GENERAL MÉDICI

Publicado no site: O Melhor da Web em 18/04/2018
Código do Texto: 137138
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