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PRINCESAS EM SÃO PAULO
15/05/2018
Autor(a): PAULO FONTENELLE DE ARAUJO
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PRINCESAS EM SÃO PAULO

Hoje noite de gala no teatro Municipal de São Paulo.
Informa o cartaz
a estreia novo espetáculo do corpo de baile:
a fábula da Bela Adormecida,

Imagino a dança,
em uma cena apenas
o príncipe entra,
descobre a princesa dormente,
- sangue europeu imobilizado entre heras -
e cede o beijo de amor na face da mórbida.

Retiro-me do Municipal,
desço as escadarias e reparo
homens sanduíches dançam com placas
e anunciam Abreugrafias,
mistérios do corpo    na radiografia    a revelar-se.

Aquele homem sanduíche bem serve à população.

Inspiro-me e percebo.
Alguém está enclausurado
na praça Ramos de Azevedo.
Dorme por aqui
e na mesma condição da Bela princesa,
alguém dessa multidão
sempre fixa na praça
- camelôs, crentes, mendigos, desempregados .
Gente que parece se eternizar,
marcar o asfalto,
devastar a terra
em volta do castelo que o teatro representa
e prostrarem-se no chão
como quem se aplica a um pasto pobre.

Mas o que é isso?
Essa dança que surge agora e vejo.
O que são aqueles braços lançados na esquina?
Imagens da chapa de raio X enfim revelada,
delírios surgidos da agudização de um tumor?
Não! São índios, índios ali também,
que reencarnam em motocicletas,
rodopiam nos espelhos, nas vitrines,
e brincam
ao som de um tamboril.
Índios em cocares a florescer,
em miçangas a girar suspensas,
enquanto    brilha o meio-fio das ruas.

Porém, a clausura da turba real da praça
não percebe a dança.
As bocas entregues a monotonia do dia,
passantes em romaria,
não    dão conta do bailado.
Vejo perto da loja Mappim
um quilombo e outros departamentos,
vejo negros escravos a inventar estrelas,
golpes, piruetas e giros de luta africana
atravessam os faróis da rua Xavier de Toledo
e completam-se no fundo do Vale do Anhangabaú.

De súbito quero gritar,
percebo em mim a concretude de altar,
de pedra fundamental
que me faz calar,
porque todos os negros, todos os índios
são príncipes da cidade aberta para a noite
e    a praça Ramos de Azevedo
solta um cheiro de jasmim,
o mesmo de uma    praça de cidadezinha,
com o seu chafariz de anjo
e coqueiros tombados pela municipalidade.

O teatro abre uma    porta.
Lembro-me do ósculo do príncipe
no    rosto tenro da Bela Adormecida
e ocorre que os índios    e os negros
beijarão agora as princesas.

Os    índios beijam e se aproximam,
beijam e já me intimam:
“Levante o véu, por favor”!

DO LIVRO:"A CIDADE POSSÍVEL"

Publicado no site: O Melhor da Web em 15/05/2018
Código do Texto: 137386
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