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Rotina (Prosa) 06/09/2009 |
| Autor(a):
LIZETE ABRAHÃO |
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Rotina (Prosa)
Daquela paisagem exígua, parada, monótona, plana para além de todos os lados, tudo já conhecem, desde a estrada sem curvas, atalhos ou desvios, até a suposta fronteira redonda, fincada na ponta do nariz (ou no olhar do vizinho). Caminham sob a névoa que lhes encobre a visão das manhãs que surgem do outro lado do cenário. São certinhos, não se enganam, tudo está anotado, previsto. Conhecem de cor o trajeto, como mulas obedientes, condicionadas pelo rebenque. Andam pelo mundo com os olhos vazados, cegos pelo entorpecedor sono do marasmo, sem mesmo terem a curiosidade de saber onde põem os pés.
Todos os dias, acordam pela manhã, dormem à noite e se deixam ficar no fundo de um rio lacerado pelo tédio, ancorados no lodoso leito, esquecidos de emergirem. Mete-lhes medo o sabor da corrente, e é tão confortável ali se deixar ficar. Nada acontece, como se uma mão vestida de luva negra encobrisse o sol e sufocasse o que resta do dia, numa sombria fascinação.
Quando forças alheias vêm pertubar seu remanso, sufocam-se sem poderem respirar, perdidos dos cheiros de outrora, de rostos macerados pela falta de luz. Tristes pela imobilidade, debatem-se presos naquele fundo macio, tragador de ânimos. Com o peito cheio de ansiedade e sonhos que nem eles mesmos sabem, esperam que lhes surja um milagre, uma deusa, uma fada, um ser de carne e osso, dde formas desenhadas, que um raio dilacere as águas, que rompa o seu mundo e que os acorde.
Há um paraíso à espera, mas eles não ousam querer buscá-lo, sob o manto da inércia, permitem que sua última gota de sangue seja bebida pelo nada. Morrem entre dois horizontes, o do limbo e o do nada.
Publicado no site: O Melhor da Web em 06/09/2009 Código do Texto: 38891 |
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