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a trilogia poética de cazuza: o amor, a dor e a solidão
30/05/2008
Autor(a): GINALDO SANTOS SILVA
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a trilogia poética de cazuza: o amor, a dor e a solidão

A TRILOGIA POÉTICA DE CAZUZA: O AMOR, A DOR E A SOLIDÃO
ginaldo_silva@hotmail.com


O TEMPO NÃO PÁRA



Na passagem de 1979/1980, o “Verão de Abertura” trouxe um clima de liberdade política e social, marcado pela volta dos exilados políticos, muitos dos quais chegaram da Europa com novidades culturais e comportamentais. Nessa comemoração só faltava a música adequada, que viria em 1982, com a Blitz – banda de rock que surgiu neste período – entrando para o cenário musical através das rádios com a música Você não soube me amar. Este novo grupo musical abriu caminho para que várias outras bandas saíssem da garagem, tais como: Barão Vermelho, Legião Urbana, Paralamas do Sucesso e Titãs.
Essa nova música da juventude urbana da classe média crescia no espaço deixado tanto pelo regime militar – com o afrouxamento da censura, por exemplo – quanto pela MPB – que utilizava constantemente metáforas cruciais para driblar a censura. O rock, embora nem sempre utilizasse do mesmo rigor formal e temático dos compositores da música popular brasileira no que se refere à estrutura e qualidade dos textos, tratava os temas valendo-se de um estilo cru e natural.
Os primeiros grandes sucessos eram referentes a namoros, diversão e liberdade sob títulos como Bete Balanço, do Barão Vermelho, ou de De repente Califórnia, de Lulu Santos.
Com a censura cedendo e com a campanha das Diretas Já empolgando o país em 1984, o rock brasileiro ganhou inequívocos contornos políticos. A esperança, porém, constituiu-se em decepção com a eleição indireta de Tancredo Neves, seguida de sua morte e da posse do vice José Sarney. A decepção foi expressa nos seguintes versos:

Meu partido é um coração partido
Minhas ilusões estão todas perdidas
Os meus sonhos foram todos vendidos
Tão barato que eu nem acredito...   


O regime militar deixou uma inflação acumulada, entre 1964 e 1985, de 977.251,9%. Para lidar com esta herança, os quatro presidentes civis das décadas de 80 e 90 lançaram cinco planos econômicos: Cruzado, Cruzado Novo, Cruzeiro, Cruzeiro Real e finalmente Real.
Em 1985, o último presidente militar, João Figueiredo, passou o cargo a José Sarney, eleito indiretamente para a vice-presidência. O sucessor de Sarney, Fernando Collor de Melo governou de 1990 a 1992. Enfrentou um processo de impeachment por corrupção e renunciou ao mandato. Após a renúncia do presidente, é instituído o Plano Real que passa a vigorar a partir de 1994 e durante todo o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso – eleito em 1994 e reeleito em 1998.
É em meio a este contexto histórico que surge em 1982 a banda Barão Vermelho liderada por Cazuza. Registrado Agenor de Miranda Araújo Neto, nasceu numa Sexta-Feira Santa, no dia 4 de abril de 1958 na cidade do Rio de Janeiro. Filho de João e Lucia Araujo, Cazuza afirma que “antes de nascer, já era Cazuza” e o nome Agenor era mais uma coincidência com o compositor Cartola.
Criado no meio artístico, desde pequeno teve contato com compositores e intérpretes da MPB, entre eles: Elis Regina, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa e outros. Cazuza, segundo o Dicionário Aurélio Buarque de Holanda, significa vespídeo, uma vespa solitária cuja ferroada é bastante dolorosa. Assim é o poeta Cazuza: sensível e rebelde. Carinhoso e desafiador, com personalidade sedutora.
Cazuza inseriu-se no universo da Música Popular Brasileira e lançou uma proposta conscientizadora e sentimentalista, mas sem abrir mão da objetividade formal. Assim produziu um discurso que atingiu de forma direta e clara para quem o lesse ou o ouvisse. Ele percebeu a necessidade de uma nova ideologia e foi em busca desta. Estava ciente da idéia de que o mundo queria ser enganado e que já não havia mais tempo a perder com letras de cunho estético bossanovista. Era preciso mostrar o Rock na sua essência universal, já que este estilo musical era cultivado pela cultura de massa influenciada pelos EUA, como referência para o jovem que estava atento ao mundo.
Em suas letras, Cazuza tinha apenas as imagens que ele vivenciava da vida humana e da cultura em que vivia. Estas imagens são produtos das suas convicções íntimas, a vocação para compor a música. E é nelas que o poeta deixa a sua marca misturando a tragédia e a racionalidade, de modo combinado, explicitando e racionalizando a história traçada em suas canções com sentidos de ações humanas, crua e desencantada, na falta de um sentido para a vida. A tragicidade da vida de Cazuza explicita-se quando a racionalidade passa a qualificar o seu estilo de vida denunciado no seguinte poema:


Meu caminho nesse mundo, eu sei
Vai ter um brilho incerto e louco
Dos que nunca perdem pouco
Nunca levam pouco
Mas se um dia eu me der bem
Vai ser sem jogo.   


Com seu tom exagerado de aversão oculta, Cazuza aparece, por seu turno, sob a forma de um fenômeno mais geral da metrópole. O Rio de Janeiro é o palco de sua inspiração poética e o torna livre para se expressar com exatidão. Ela oferece condições decisivas para que o poeta absorva em suas ruas o verdadeiro significado para compor o que está ao seu redor. Um apaixonado e ciente a todo momento, da gravidade de suas escolhas enquanto homem em um mundo marcado pelo desencadeamento. Cego pelas ilusões de um saber dessacralizado, Cazuza é contemporâneo, definido por Weber como “destinado a viver em uma época sem Deus e sem profetas”    em que os valores essenciais se retiraram da vida pública para refugiarem-se em uma vida mística ou nas relações humanas diretas e pessoais. Conforme o poeta:


Gnomos existem
E são minha escolta
Anjos, gnomos
Amigos e amigos
Tudo é possível
Outra vida futura, passada.   


O poeta adota, frente ao problema da causalidade, uma postura distante em que o racional e irracional se mesclam em proporções possíveis de serem determinadas para explicar a realidade sociocultural, mantendo-se à altura de existência cotidiana. Para Weber “o destino da nossa época caracteriza-se por uma racionalização e intelectualização e sobretudo, pelo desencantamento do mundo”.   
Cazuza contempla o céu sobre sua cabeça como o faz qualquer criança e o desencantamento do mundo e a racionalização fazem com que o céu deixe de ser para ele a manifestação natural do Espírito que engloba o mundo e o ilumina, substituindo esta visão ingênua por uma agonia irremediável diante do abismo que se mostra incerto em virtude do desenvolvimento que essa racionalidade conduziu.


Eis o sol, eis o sol
Apelidado de astro-rei
Eis que achei o grande culpado
Desse meu viver destrambelhado
(...)
meu coração lacrado
(...)
sepultado e logo abandonado.   




Esta postura de Cazuza diante deste vazio de sentido da vida não poderia ser preenchido por uma ética racional. Ele está ciente de que os valores que libertam também aprisionam, que o presente é para ser vivido e o amanhã é o dia que nunca chega. Está num estado permanente de superexcitação transformando seus estímulos em criatividade cultural, cercado por uma infinidade de elementos da cultura que o sufoca assimilando em sua própria interioridade o seu próprio desenvolvimento artístico. O exagerado-Cazuza distancia-se da sua origem interiorizando as influências que estão fora de sua esfera pessoal liberando as energias que repousam na própria alma, obedecendo a um impulso de forma interior para compor suas músicas. Tal impulso é sentido a partir do momento que Cazuza torna-se o eu de suas composições passando a ser em seguida um objeto, sobre e contraposto a si mesmo, visando um mundo unitário próprio.
E nisso ele não se diferencia do conflito social entre o homem como individualidade e o mero membro do organismo social, criando através de uma relação metafísica entre sujeito e objeto, uma realidade histórica, a qual não é um simples transmissor de outras ideologias, mas tem seus próprios processos independentes e seu papel ideológico.


Ideologia
Eu quero uma pra viver...   





A obra de Cazuza está inserida em uma época de transformações contínuas, cujo universo é explorado pela reflexão racional e o devaneio poético, transformando assim, o imaginário numa unidade harmônica de conflitos existentes e ainda por vir, numa imagem recolhida com surpreendente linguagem humana. Utilizando-se do saber racional e a criação poética, Cazuza encontra nestas duas unidades elementos que o inspiram para melhor expressar-se. Ele é o homem diurno quando deixa-se criar através da razão e é o homem noturno quando dá ênfase ao irreal da imaginação criadora. Para Gaston Bachelard o poeta “deve elevar-se aos excessos da expressão exuberante, entrar na síntese imprevisível da criação poética”,    pois, ele é o verbo que opera de modo audacioso, transcedendo, rompendo e transformando-se em um novo espírito literário. Bachelard afirma que ser poeta “é multiplicar a dialética temporal, é recusar a continuidade tranqüila da sensação e da dedução”.   
Cazuza é o sujeito da consciência clara que busca a verdade rompendo com o senso comum do seu devaneio poético. E este devaneio poético é o que reconcilia o mundo com Cazuza, presente e passado, solidão e comunicação. É a base de sua poesia e o poder intermediário do qual dependem o pensamento e a ação. Ele compõe utilizando-se da imaginação literária. As imagens que são rejeitadas pelo simples fato de serem um retrato do cotidiano urbano, são inseridas em suas músicas com tom irresistível ganhando força e poeticidade, com um impulso imaginativo que só a ele diz respeito não importando a opinião alheia. A exemplo:



Pouco importa
O que essa gente vá falar mal
Falem mal
Eu já estou pra lê de rouco
Louco total...   



Segundo Bachelard “a singularidade das imagens não é uma fantasia gratuita”    e o espírito poético é pura simplesmente uma sintaxe de metáforas. Cazuza como Bachelard prefere o devaneio ao sonho noturno. A identificação com o eu ou o outro sujeito que sonha por nós, dá-se quando o sonho é relatado através de suas visões estabelecendo uma relação real imaginária que se forma no ato de imaginar e relatar seus sonhos sem perder contato consigo mesmo, e mergulha no mundo fixando o seu objeto à sua imagem. Para Bachelard, “há uma imaginação que dá vida à causa formal e uma imaginação que dá vida à causa material”.    Estes dois conceitos são indispensáveis na criação poética de Cazuza.
Cansado de correr na direção contrária, Cazuza, ao compor seus sonhos e imagens, deixa a mão trabalhadora percorrer as linhas perfeitas criando versos e frases com dinamismo e sensibilidade poética. Suas imagens instigam e despertam no ouvinte/ leitor o próprio devaneio Cazuziano regradas de felicidade poética e narcisista.
O Romantismo acompanha sua obra como característica indispensável de um mundo interpretado e vivido intensamente. A análise de suas letras musicais do ponto de vista literário pode ser beneficiada se levar em conta as características que unem a palavra com a melodia numa relação dinâmica de significados verbais. Assim como o significado e a efetividade poética que produzem um efeito notável sobre o texto, para Cazuza o novo já não o é.

Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu
De grandes novidades
O tempo não pára.
Ou quando afirma que “atualizar Lupicínio Rodrigues é trazer essa tradição da poesia brasileira através de uma abordagem mais moderna”.    É manter a sua poesia mais próxima da realidade.   
Independentemente da melodia, o texto de sua canções é literariamente bem construído, não havendo razão para não se considerar seus méritos literários. Em Cazuza nota-se a presença de figuras literárias, o sentimentalismo e a agilidade verbal. Apesar dele não se considerar um poeta: “Eu não me considero poeta, sou apenas um letrista para divertir o povo”.    Inserir Cazuza em um determinado estilo é quase impossível, pois suas composições estão relacionadas ao blues, ao samba-canção, a bossa nova, ao rock e a MPB. Para Cazuza “não tem nenhum jovem fazendo música brasileira, todo mundo é roqueiro, não tem ninguém que faça samba-canção” e finaliza: “precisamos redimir a música brasileira”.
Há composições de Cazuza caracterizadas também pelo protesto e com tonalidade crítica, com uma visão sócio-poética relacionada a sua realidade. Em Brasil:


Brasil mostra a tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil qual é o teu negócio?
O nome do teu sócio?
Confia em mim.



Com a visão de quem precisa de uma ideologia para viver, desencantado e sempre nadando contra a corrente, Cazuza, sem querer, incorpora o perfil do jovem brasileiro. “Não quero que me imitem. Não quero ninguém atrás de mim. Tenho muito medo de ser porta - voz de qualquer coisa”.    Sua poética é basicamente direcionada ao amor. Ao sentimento vivo que lhe serviu como grito sufocado. Um grito do filho da pós-ditadura criado no seio da intelectualidade brasileira. Possuidor de características que o tornam um romântico, sua obra tem toda uma carga de literariedade. Suas composições refletem a angústia de um ser que está atento ao mundo que vive. Um mundo mesclado entre Álvares de Azevedo, Rimbaud, Clarice Lispector e a boemia que o cerca. No poema Down em mim:


Eu não sei o que o meu corpo abriga
Nestas noites quentes de verão
E nem me importa que mil raios partam
Qualquer sentido vago de razão
Eu ando tão down..




A rebeldia e a poeticidade se fundem para tornarem-se arte. A arte das palavras. Para Cazuza o amor e a dor são essenciais como ferramentas de criação.


Há poesia na dor, na flor, no beija-flor
Na dor, na flor, no beija-flor
No elevador.


A intertextualidade também está presente em suas composições. Música e poesia se transformam com um único objetivo: mostrar que o letrista musical também é um poeta. E com ele para trilhar a trilha louca do poeta juntam-se grandes poetas da literatura brasileira: Waly Salomão, Clarice Lispector e Oswald de Andrade. “Gosto de coisas densas, como a literatura de Clarice Lispector”.



Sou inquieto, áspero e desesperançado
Embora amor dentro de mim eu tenha
Só que eu não sei usar amor
Às vezes arranha feito farpa   


Musicalmente é influenciado por compositores que, assim como ele, fazem de suas vidas o cenário para suas tristezas: Dolores Duran, Maysa, Cartola, Billie Holliday, Janis Joplin, Gilberto Gil, Lobão, Ângela RoRô, entre outros.
“Ideologia, eu quero uma pra viver”. Cazuza quando grita essas palavras na década de 80, declara explicitamente a sua insatisfação diante da    realidade em que vive. O jovem cansado que a tudo ver, reflete nos seus versos, o grito público em favor das necessidades, e urgências dos que são marginalizados e perseguidos.
Atitude renovada, só vista na década de 60 quando Caetano Veloso sobe no palco e recita os primeiros acordes de Alegria, alegria. Décadas diferentes e contextualização histórica com problemática do mesmo gênero. Tanto Cazuza quanto Caetano sabiam e estavam cientes deste contexto. Ambos sentem essa necessidade de liberdade. Cazuza expressa na letra de Boas Novas: “então, vamos pra vida” e Caetano deixa-se ir sugerindo e contrapondo: “eu quero seguir vivendo, amor”.
Os dois, por sua vez, absorveram a concepção de vida de Mário de Andrade dos anos 20: “A própria dor é uma felicidade”. Cazuza parafraseia Mário raciocinando corretamente em seus versos: “O futuro repete o passado e o museu é de grandes novidades”.
O grito público destes três poetas, Mário, Caetano e Cazuza tem raízes profundas. É a capacidade do jovem moderno de demonstrar a insatisfação que lhe fere e conseguir sair fortalecido desta experiência. Na canção de Cazuza: “raspas e restos me interessam”. Enquanto o seu momento histórico lhe ditava: “a vida é bem mais perigosa que a morte”. E saindo-se bem deste contexto: “eu vi a cara da morte, e ela estava viva”. Esta capacidade de ver-se livre, estado em que entrar e sair só são permitidos para “aqueles que se deixaram introjetar nesta vida de horror, vivida de maneira vil e apagada”.


Se você achar que eu estou derrotado
Saiba que ainda estão rolando os dados
Porque o tempo não pára...


Cazuza desponta no cenário musical em meio a uma geração de criadores da música popular brasileira que já tinham consolidado o mito da bossa-nova, da subversão tropicalista e da qualidade poética de Chico Buarque de Holanda. O rock de Cazuza afigura-se como a junção de idiomas – no sentido lingüístico e musical - norte-americano. Compositor jovem de consciência aguda e inquieta, oscilante entre o tradicional e o pós-moderno.
E nesta consciência não há uma experiência ou mesmo um passado coerente. Há sim, resíduos de um determinado tempo em que os “heróis morriam de overdose” e o presente reflete em um futuro como num clipe sem nexo.
Tudo isso transparece na criação de Cazuza, contribuindo para a formação do rock brasileiro. Roqueiro sem saber o significado exato do que seja o rock: ”Eu não entendo de rock, mas, como componho com quem faz rock, o resultado é esse estilo”.    O compositor se depara com ruínas de identidades, autoridades, afetos e valores sexuais. As palavras apontam para este desregramento e ele canta: “meu partido é um coração partido, e as ilusões estão todas perdidas”. Esta fragmentação é visível na obra de Cazuza. Seu sentimento de mundo tem de ser analisado como sintagmas, frases e versos. Há mensagens com integridade semiótica, textos com autonomia poética.
De todo o modo, a criatividade em Cazuza não é apenas baseada em emoção posta em palavras/ sons, mas, em um ato de concepção de um discurso. Ele é a crise encarnada do desejo. Mas há também uma atmosfera afetiva presente à procura do desregramento dos sentidos com intensidades encontradas em poetas de épocas diferentes: de Rimbaud a Álvares de Azevedo. Percebe-se também, em especial, a sua sensibilidade, determinada pelo momento histórico urbano nacional, pela visão de mundo, construída pela classe média na tentativa de romper, através de suas canções, os signos da mutação simbólica a que estamos expostos.
Tais características são visíveis na sua poética que será estudada no capítulo seguinte.





CAPÍTULO II

ISTMO ENTRE LETRA E POESIA



“O século XX foi marcado por duas grandes revoluções culturais: a revolução modernista, nos anos 20 e a revolução pop com o fim da ditadura Vargas em 1945”.    O impacto da revolução pop abalou o lugar cultural do poema. A poesia é seqüestrada pela música.
Os meios de comunicação tiveram grande importância para a propagação musical no Brasil. O ano de 1982 marcaria para sempre este grande feitio com o surgimento de bandas que há muito tempo estiveram silenciadas pela não condição de poder mostrar ao mundo as suas propostas. E é neste cenário que a indústria cultural teve a sua predominância definitiva. Tratava-se do problema da cultura de massa. Segundo Theodor W. Adorno: “uma cultura que surgiu espontaneamente das próprias massas”,    mantendo-se a serviço das terceiras pessoas e a sua afinidade com o processo de circulação de capital. Para ele, “as mercadorias culturais da indústria se orientam segundo o princípio de comercialização e não segundo o seu conteúdo”.    O consumidor é então, o objeto da indústria cultural e não o sujeito.
O mercado fonográfico estava à procura de novas possibilidades de aplicação de capital. E para isto, tinha que investir em um comércio interno com intuito de se chegar ao comércio exterior. Era chegado o momento de vender as mercadorias culturais que, de qualquer maneira, deveriam ser absorvidas pela massa consumidora. Adorno ainda afirma que “através da ideologia da indústria cultural, o conformismo substitui a consciência”.    Com isto, instalou-se um tom de indulgência irônica entre os intelectuais que queriam se acomodar a esse fenômeno e que tentavam conciliar suas reservas em relação à indústria cultural. Para isso a indústria cultural desenvolveu esquemas que chegavam a atingir a conceituação, criando assim, a música de entretenimento visando esta mesma classe de consumidor.
A discussão sobre a posição que os poetas da música popular ocupam no processo criativo e artístico do século XX está em aberto. Analisar a obra de um determinado compositor irá, certamente, revelar textos poeticamente bem escritos ao lado dos melhores textos contemporâneos. “Este tipo de contraste aumenta ainda nossa sensibilidade para os diferentes caminhos poéticos”,    afirma Charles A. Perrone. A avaliação literária dos textos de canção leva à difícil tarefa de descobrir modos de aproximar as letras musicais da produção de um poema ou de uma poesia. Ainda segundo o mesmo autor: “Uma letra pode ser um belo poema mesmo tendo sido destinada a ser cantada”.   
Na Princeton Encyclopedia of Poetry and Poetics    há uma abordagem sobre a questão da sobrevivência das letras de rock na página impressa. Allen Ginsberg (citado na referida Encyclopedia) inclina-se a fazer o mesmo julgamento: “a letra de rock deve ser tomada juntamente com sua música como uma construção poética única: pelo fato de muitos letristas de rock pensarem não somente nas palavras”.    Eles construíram um novo gênero de verso rimado, pessoal e realístico. O texto musical publicado tem participação como manifesto literário. “Os textos musicais quando impressos são um modo secundário de comunicação artística”.   
As figuras literárias estão presentes no surgimento da canção popular e são mencionadas em estudos históricos tanto de literatura quanto de música popular. Caetano Veloso em 1970, através de suas publicações em prosa e poesia, revelou uma sensibilidade literária que é encontrada em suas letras e em suas composições musicais: a alusão, a paródia, o ludismo e a experimentação estrutural. A poeticidade entre os compositores contemporâneos é um fenômeno cada vez mais difundido, com vários aspectos pertinentes de um ponto de vista literário.
A poesia – em face da arte brasileira da palavra – está presente nas letras da música popular, no Cordel nordestino, no rock dos anos 80 e no hip hop dos 90. A poesia literária encontra na canção popular uma matriz inspiradora, fornecedora de temas e motes.
Segundo Ítalo Moriconi: “ Letristas de rock como Cazuza e Renato Russo foram poetas destacados em nosso fim de século”.    E conclui: “ A poesia está no ar porque a canção popular está no ar”.   
Esta indistinção e fusão conceitual entre poesia e a canção tem uma longa história em nossa cultura literária. As medievais Cantigas de Amor e de Amigo inauguraram a poesia sentimental lusa, eram composições musicais. Ainda segundo Moriconi, “todo letrista é poeta. Mas nem todo poeta é ou quer ser letrista”.    A poesia torna-se pura emoção inteligente.
Manuel Bandeira, considerado amante da música, autor de tantos poemas musicados, letrista e crítico musical bissexto, sempre contou com a qualidade realçada entre as qualidades atribuídas à sua poesia que é essa espécie de musicalidade intrínseca, apta a ser desentranhada em música propriamente dita. As relações sutis entre poesia e música não escaparam à lucidez teórico-crítica, sempre discreta na prática de Bandeira.
A originalidade brasileira da bossa nova e da MPB acabou ficando bem liberal marcando o debate pós-moderno em outros países como os Estados Unidos e a França.
Italo Moriconi declara que “a palavra poesia apresenta certa flutuação de sentidos”.    É querer saber das coisas, cultivar as letras e o intelecto. Esta poesia traz, sobretudo, o prazer. As palavras são o próprio dialeto da vida. São usadas para os corriqueiros propósitos diários e são o material do poeta, tal como os sons são o material do músico.
Poesia essencial é a poesia lírica. Ela transita facilmente do ritmo poético para o compasso musical e vice-versa. O que define em última instância o abismo entre literatura e canção, entre poema-poema e poema-letra-de-música é o suporte que permite sua sobrevivência como objeto cultuado num patrimônio estético e afetivo coletivos.
“Toda linguagem tem seu quê de poesia”.    A poesia brinca com a linguagem explorando as coincidências sonoras entre as palavras. Fabrica identidades através de imagens e metáforas. Possui sentidos que extrapolam a linguagem verbal, oral ou escrita. A poesia é popular.
Sartre considera as palavras como coisas e não como signos: “os poetas não falam, nem se calam. O poeta se afasta por completo da linguagem”.    O mundo é um ato de criação poética e um dos principais motivos da criação artística é certamente a necessidade do poeta sentir-se essencial em relação ao mundo. É fazer com que ninguém possa ignorar o mundo e considerar-se inocente diante dele.   
Para Moriconi, poemas são para serem lidos em silêncio ou falados em voz alta. Porém, todo poema pode receber melodia e tornar-se canção. Muitos poemas de Bandeira serviram de letras para compositores como: Villa-Lobos e Camargo Guarnieri. Inversamente toda letra de música pode perder sua melodia e tornar-se poema quando posta em uma página. Integram-se à literatura alguns poetas – letristas, como foram no passado Vinícius de Moraes, Torquato Neto e Cacaso, como são no presente Geraldo Carneiro e Arnaldo Antunes. “Literatura é texto que se guarda”.    Basta observar a poesia de Cecília Meireles e constatar que suas poesias foram efetivamente destinadas a serem musicadas, assim como as de Fernando Pessoa.
Para os modernistas, a poesia estava mais relacionada com o momento e eles não se preocupavam com a estrutura do poema em si. Era o instrumento que captava com simplicidade a essência da vida como ela é. Focalizava com intensidade no tempo: “focalizar para celebrar”, a exemplo do que faziam os poetas como Manuel Bandeira e Mário de Andrade. Focalizar o detalhe dando uma outra visão do real, como na poesia “pau-brasil” de Oswald de Andrade e ironizar a vida e a si mesmo em Carlos Drummond de Andrade.
O Modernismo modifica a cultura literária e os parâmetros da língua portuguesa    no Brasil. Passou a designar tudo que representasse uma modernização da vida brasileira conectado com o mundo e em busca de uma compreensão de brasilidade.
Moriconi conceitua o modernismo como “modernização + conscientização nacional. É o Brasil ajustando suas “lentes para melhor olhar-se a si mesmo”. Na poesia o Modernismo brasileiro representava a atualização do ambiente cultural em relação às vanguardas européias. No auge do proselitismo concretista, Augusto e Haroldo de Campos decretam que o poema não é poema. O poema deve ser não-poema “deve ser objeto verbivocovisual”.   
Já o pós-modernismo é um termo de periodização artística e literária. É o que vem depois do modernismo, abrangendo três fases: primeiro modernismo dos anos 20, modernismo dos anos 30-45 e modernismo canônico de meados dos anos 40-60. O fim do século é determinado pelo pós. Pós-tudo: fórmula usada num poema publicado em 1984, por Augusto de Campos. Impressão generalizada de que nada mais de novo havia a fazer ou dizer, depois de um século de experimentação. De um lado o vanguardismo utópico, de outro, a exaustão.
Da geração 70 a 90, o cenário poético brasileiro levou a contracultura à reação cultural. A década de 70 foi pós-68. Foi pop e ao mesmo tempo de esquerda gerando assim, a poesia marginal, encontrando seus modelos na poesia de Bandeira e de Mário Quintana. Os anos 70 deixaram sua marca dentro da hegemonia da canção como manifesto do poético, propiciando uma reação literária definindo o cenário poético do fim do século.
Os poetas dos anos 90 optaram por uma escrita mais nobre, menos coloquial e sem utilização da gíria, como podemos ver na poética de Antonio Cícero. Optaram por linguagens mais preciosas, sofisticadamente alegóricas com registros idiossincráticos.
O poema é curto e há predominância de vozes remando contra a corrente insistindo no verso longo. A poesia de Manoel de Barros, poeta marginal, reatualiza a poética de cunho regionalista e neológica na linha de Guimarães Rosa. Completando este elenco de poetas/escritores destaca-se Adélia Prado que ao reescrever o poema canônico de Drummond – Com Licença Poética – utiliza-se da intertextualidade entre o seu poema pós – modernista e o poema original modernista de Drummond.


Quando nasci um anjo esbelto
Desses que tocam trombeta, anunciou:
Vai carregar bandeira
Cargo muito pesado pra mulher,
Esta espécie ainda envergonhada
Aceito os subterfúgios que me cabem,
Sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
Sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
Acho o Rio de Janeiro uma beleza e
Ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas a que sinto escrevo. Cumpro sina.


Não se trata de paráfrase. O poema de Adélia é pastiche e paródia por ser canto paralelo, baseando-se nas palavras e do tema do poema original para lhes dar um novo sentido. Se na persona de Carlos “havia o dilaceramento, a hesitação entre o dizer e o não-dizer”    a culpa e a busca da perfeição, em Adélia afirmava-se a simples alegria de ser.



Imagino linhagens, fundo reinos
Dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
Já a minha vontade de alegria,
Sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai sex coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.





















2. 1 O amor, a dor e a solidão.


Tomando como base estes argumentos é que neste trabalho será analisada a poética de Cazuza que na contemporaneidade, é considerado um letrista poeta, tanto pela estrutura dos seus versos, quanto pela temática por ele abordada.
Antonio Candido em Formação da Literatura Brasileira, afirma que “Silva Alvarenga foi o primeiro em nossa literatura que sentiu e exprimiu certos tons da nossa sensibilidade”.    A volúpia à flor da pele em ritmos tão brasileiramente com um gosto poético mais apurado com musicalidade que dissolve os valores específicos da palavra. Exemplo:



Sou forçado a alegre canto;
Faço esforço de alegria,
E oculto no fundo d’alma
A mortal melancolia.



Os rondós e os madrigais anunciavam um traço básico do Romantismo, ou seja, a musicalidade e a melancolia expressando os momentos do terno cantador. Para eles caberia a palavra de Goethe clássico e iluminista que chamava a esse Romantismo de “poesia de hospital”.
A natureza Ultra-romântica é expressiva. O eu romântico é incapaz de resolver os conflitos e lança-se à evasão, ao abandono e à solidão, entregando-se ao Spleen de Byron e ao mal du siècle de Musset, tendo como principal representante Álvares de Azevedo. Os ultra-românticos preferem a noite ao dia, pois à luz crua do sol o real impõe-se ao indivíduo, atribuindo “ser na treva que latejam as forças inconscientes da alma”.




Pensei que o amor vivesse à luz do sol
Ele vive ao luar
Eu pensei encontrá-lo no calor do dia.
Consolador da noite é o doce amor.
Na escuridão da noite.



O amor e a dor fundem-se com a solidão traçando o perfil do ser ultra-romântico, atormentado e inquieto. Do ser que compõe ritmos frouxos em sonhos concretizados por imagens e sentimentos povoados de fantasia. A exemplo nos versos de Casemiro de Abreu:


Minha alma é triste como a rola aflita
Que o bosque acorda desde o albor da aurora
E em doce arrulo que o soluço imita
O morto esposo gemedora chora
(...)

E, como a rola que perdeu o esposo
Minh’alma chora as ilusões perdidas,
E no seu livro de fanado gozo
Relê as folhas que já foram lidas.





Na contemporaneidade, na poética de Cazuza, os três sentimentos se destacam formando e dando um tom especial às suas letras, deixando transparecer a angústia do jovem moderno que possui características do jovem ultra-romântico: negação das normas e desabalada vontade de transgredir. Assim como Álvares, Cazuza possui informação considerável para o tempo e a idade. Passa de um pólo ao outro, modulando a dor, o amor e a solidão, com versatilidade manifestada pela adesão à teoria romântica dos contrastes.
A representação da solidão e da dor remonta à Antiguidade greco-latina. Homero no canto VI da Ilíada descreve o sofrimento de Belerofonte, cujo coração fora devorado pela mágoa. O herói torna-se solitário e vive errando entre homens.   
No Banquete de Platão, no discurso de Aristófanes, quando este se propõe a discorrer sobre o amor apresenta o mito do Andrógeno: o homem em sua origem era um animal grande, tinha duas cabeças, dois troncos, quatro braços e quatro pernas. Este animal era equilibrado, vaidoso de si mesmo, auto confiante e auto suficiente. Tão grande era a sua arrogância que resolveu desafiar os deuses. Zeus irado com a prepotência do homem planejou destruí-los. Refletiu e ao invés de destruir os homens decidiu enfraquecê-los definitivamente. Dividiu-os ao meio. Ou seja, cada parte ficou com uma cabeça, um tronco, dois braços e duas pernas. Criaturas frágeis e tristes passaram a buscar desesperadamente o reencontro com suas metades perdidas. A esta busca incessante é que se denomina o amor, isto é, o sentimento de vazio e perda.
O amor é irrealizável, inacessível ao ser humano que só consegue vivenciá-lo experenciando ao mesmo tempo a dor e a solidão. Max Weber afirma que “o desencantamento será o espírito”.    O homem-Cazuza está preso a um destino povoado por forças que dá a falta de sentido, apropriado para a sua época, em que a tragicidade de existência passa a ser reconhecida como a racionalização da vida. Trata-se de um destino não planejado em que a irracionalidade e as inconsistências que o acompanham dão a tônica moderna da tragédia cultural. Cazuza é este homem desencantado que se encontra esclarecido pelos avanços da racionalidade e também o autor que se utiliza de sua própria experiência de mundo para contornar a realidade das ações que desempenha, como unidades fragmentadas. Descobriu o valor da individualidade na existência de uma vida em perseguição desregrada ao prazer.
Ao afirmar-se poeta sem saber amar, Cazuza rompe com uma concepção de amor instituída culturalmente. Aquela que prega o amor como quase sempre espiritual e inalcançável. O Cazuza romântico vai de encontro ao conceito deste amor idealizado, ou seja, se opõe ao Romantismo que idealiza uma concepção de mundo. Conseqüentemente um estilo de amor. Para ele, tudo que é provocado pelo impulso é permitido e o amor é realizável. É o que notamos em Codinome Beija-Flor:





Pra que mentir
Fingir que perdoou
Tentar ficar amigos sem rancor
A emoção acabou
Que coincidência é o amor
A nossa música nunca mais tocou...
                     (...)
Eu protegi o teu nome por amor
Em um codinome beija-flor
Não responda nunca meu amor
Pra qualquer um na rua beija-flor...





Se é triste o romântico, a natureza também o é, pois para ele, a natureza constitui um estado de alma. Ao contrário de Cazuza que é o moderno-romântico possuidor de uma vida boêmia, impulsionado pelo álcool e enfebrecida por um hedonismo sem limite, que se entrega à aventura do amor como o fazia Byron. Ele se vê diante da impossibilidade de realizar o sonho do eu e projeta a dor em suas letras com profunda tristeza, desespero e inquietação, como o romântico redentor do povo, a quem ama como irmão de dor e injustiça. A exemplo na letra de Burguesia:



A burguesia fede,
A burguesia quer ficar rica
Enquanto houver burguesia
Não vai haver poesia..
(...)
Eu sou burguês
Mas eu sou artista
Estou do lado do povo
Eu também cheiro mal...



Recluso no próprio eu, Cazuza é um romântico que experimenta sensações agridoces, quer na contemplação das tempestades interiores, quer na sua confissão, e entrega-se ao fluxo da música, transmitindo a um ouvinte que acaba sendo ele próprio encarnado no outro, no sentido de uma comunhão essencial entre eus convulsos, sentindo-se incompreendido pelo mundo.


CAPÍTULO III


A TRILOGIA




3.1 O AMOR.

Nas composições de Cazuza o amor aparece de forma expressiva. É através dele que o poeta mescla-se com o eu    ultra-romântico num paradoxo visível em suas letras. Para ele o amor é realizável, é acessível ao ser humano e é ao mesmo tempo incompreendido por ser considerado diferente do amor ultra-romântico, que é inacessível e incapaz de resolver os seus conflitos.
Na letra de Todo o Amor Que Houver Nessa Vida, Cazuza reivindica um amor e deixa-se levar pelo desejo de todo o amor que há nessa vida, como um ser que está aberto a toda forma de amar e sempre em busca da felicidade que nunca é completa. O Romantismo se fixa de forma clara e transparente. Pede um remédio que lhe dê alegria e traça o perfil da geração 80 destacando-se pela poeticidade de seus versos que transformam a letra num poema cheio de exageros sentimentais e poéticos.



Eu quero a sorte de um amor tranqüilo
Com sabor de fruta mordida
Nós na batida, no embalo da rede
Matando a sede na saliva...



Um comportamento, um estilo de vida. Nos versos de Pro Dia Nascer Feliz, Cazuza registra aspectos de sua personalidade poética que quer transformar o tédio em melodia. Cria versos bem construídos e impressiona por se opor à infelicidade, partindo em busca do que seja a vida por ele escolhida. Nega-se a não viver intensamente e troca a noite pelo dia, como faziam os ultra-românticos, como uma opção de vida, diz o poeta:


Todo dia a insônia
Me convence que o céu
Faz tudo ficar infinito
E a solidão
É pretensão de quem fica
Escondido, fazendo fita





Cazuza é o boêmio que sonha com seu próprio estilo de vida. Das noites mal dormidas e o resultado do que ficou desta intensidade que ao acordar torna-se um descuido, um engano: “porque no sonho ela me amava e, se acordei, foi por descuido, foi por engano”. Ele questiona o “por que a gente é assim” levado pelo som de um blues, como fundo musical para ir de encontro a este questionamento. Cria a letra de Baby Suporte através de uma frase em uma agenda. A frase é uma pergunta: “que diferença há entre o amor e o escárnio?”. Para Cazuza o amor e a “esperança está grudada na carne”.


A esperança está grudada na carne
Que diferença há entre o amor e o escárnio
Cada carinho é o fio de uma navalha...




Por que a Gente é Assim torna-se letra depois de ter sido um bordão da dupla Cazuza e Ezequiel Neves. A letra traz um tom de súplica, a necessidade de Cazuza em encontrar um alguém que o ame, que o conquiste e que o faça feliz. E para isso ele determina exatamente o tempo necessário para que se cumpra o que ele espera e finaliza afirmando que, o seu amor (a pessoa amada), tem a vida inteira para devorá-lo transformando esse amor em um sentimento atemporal. Ao mesmo tempo está ciente que esse amor é apenas passageiro e não resistirá ao tempo, desabafando como quem quer compensar o outro por este amor que é proposto, afirmando que tem tudo que o outro precisa. Ele ainda afirma: “nós somos iguais na alma e no corpo”.
Na letra de Exagerado Cazuza declara seu amor atribuindo este fato a coisas do destino. Demonstra a sua paixão de forma desenfreada e justifica-se pedindo desculpas por suas mentiras:


Amor da minha vida
Daqui até a eternidade
Nossos destinos foram traçados na maternidade.





Considera-se exagerado pelos seus atos. Mostra-se capaz de matar, roubar e mendigar para demonstrar o seu afeto de forma exagerada. E afirma ser capaz de morrer se não for correspondido, parafraseando Goethe em    Os Sofrimentos do Jovem Werther, o qual influenciou de forma direta, a todos os românticos de sua época, em que morrer por amor era símbolo absoluto de romantismo com tons de tragédia.



Eu nunca mais vou respirar
Se você não me notar
Eu posso até morrer de fome
Se você não me amar.





Finaliza a letra demonstrando a veracidade de seu amor dando provas do que é capaz de fazer por ele: “por você eu largo tudo”, incluindo sua carreira, dinheiro e canudo. Torna-se um medieval atormentado pelo romantismo e a própria realidade. Ele ama às vezes e constrói seus castelos, tira férias e embarca num tour para o inferno atormentando-se e deixando-se levar pela imaginação, criando belos versos, rimando lua com rua, para encontrar o seu amor.


Meu amor, meu cúmplice
Eu sempre vou te achar
Nos avisos da lua
Do outro lado da rua




Wally Salomão conceitua Cazuza como um “misto de doce menino e louco destrambelhado”. E a partir deste conceito compõe a letra da canção Baladas de Um Vagabundo, inspirada em Cazuza, ele afirma: “teci este poema como mentira sincera de uma suposta simbiose Hélio Oiticica-Cazuza. Como se os cavalos de Oiticica tivessem baixado em mim”.    A letra retrata um Cazuza alegre que salta para o amor e ao mesmo tempo é o menino que não se contenta apenas com um só amor, uma verdadeira inflação de amor incontrolável.
Inspirados pelos beija-flores, Cazuza compõe Codinome Beija-Flor, uma das mais líricas de seu repertório. Nela o poeta protege o amor para guardá-lo do mundo. Esse amor é único e vicioso. O codinome dá-se como forma de preservação em que Cazuza tece a poesia acompanhada de violino e piano ao mesmo tempo. Diz o poema:



Eu protegi o teu nome por amor
Em um codinome, beija-flor
Não responda nunca meu amor
Pra qualquer um na rua, beija-flor...





No poema Só Se For A Dois, Cazuza deixa claro que a felicidade só é possível a dois. Há uma fantasia romântica em que o objetivo é encontrar a cara-metade, a companhia ideal para a realização desse sonho. Cazuza afirma que “as possibilidades de felicidade são egoístas” e está consciente de que viver a liberdade, amar de verdade é possível entre duas pessoas. Entra em contradição enquanto homem possuidor de um espírito livre que está longe de entregar-se a um único amor. Metamorfoseia-se em vários Don Juans trilhando a louca estrada do poeta que ama o amor livre e não está preso a ninguém.
Cazuza sabe que a vida é bela, cruel e despida, mas também mágica. A sensibilidade poética é expressa quando “o poeta fecha o livro, sentindo o perfume de uma flor no lixo” e sabe que “o amor na prática é sempre ao contrário”. Inventa um amor e se distrai quando percebe que este amor é uma mentira. Justifica o próprio amor como poesia de cego e chega à conclusão de que ele nunca existiu.


O nosso amor a gente inventa
Pra se distrair
E quando acaba a gente pensa
Que ele nunca existiu






Valorizando o seu processo de composição, Cazuza ao compor Completamente Blue, deixa transparecer a sua angústia, combinando com perfeição música e letra. Suplica em Quarta-Feira que o “ame bastante” e declara-se apaixonado por “cachorros e bichas” porque ele sabe que “amar é abanar o rabo, lamber e dar a pata”. Deixa-se conduzir por um amor “descarado, virado” declamando que “o mundo lá fora não serve pra nada”. Perde-se na razão sabendo distinguir se isto é “doença ou paixão”.



Acenda as luzes todas
Perca a razão
Vem, me procura e encaixa
No escuro do meu coração






Na letra de O Assassinato da Flor, Cazuza reflete sobre o amor e a dor. Afirma que “todo mundo pega uma flor por amor”, mas, para dá-la a pessoa que ama é preciso matá-la, transformando a letra em um poema cheio de exageros sentimentais. Ele justifica esta morte afirmando que o assassinato da flor foi apenas por amor, parafraseando o Marquês de Sade que, em seu livro Os Crimes de Amor, retrata o mesmo tema que vai de encontro ao ódio. Para ele, o amor e o ódio são vícios de um indivíduo atormentado que não sobrevive sem senti-los. Cazuza explica que “as flores não se tocam, vivem para si e pros passarinhos e pro vento”, assim como uma alma romântica que não está presa a nenhum sentimento e apenas vive sua intensidade mesclando seus sentimentos como prova viva de um viver destrambelhado.
Ele precisa resgatar o amor mesmo que tenha que envolver uma orelha num pano vermelho como prova desse amor, presente na letra de A Orelha de
Eurídice:


Trouxe uma orelha envolta
Num pano vermelho
É a prova meu amor
Me espera sem uma orelha
Vou correndo, vou agora
Resgatar o meu amor...





Fica feliz com a ajuda e sente-se salvo. Cazuza deixa claro que “é a alma que castiga o corpo”, mas tem a certeza de que “não é a cicatriz que identifica o ser amado”, como fez Homero com o seu personagem Ulisses, em A Odisséia, quando é reconhecido pela ama através de uma cicatriz.
   E agradece por ter amado, por ter sido acordado para a realidade e por não “ter voltado pra buscar as coisas que se acabaram”, mas por “ter levado a ingratidão bem guardada”. Submete-se ao amor inconseqüente pedindo pouco e se dá por feliz. Ele entrega-se ao ser amado perdendo noites de sono só para vê-lo dormir, e finge-se de burro pra o outro sobressair, criando uma imagem de submissão amorosa com receio pela perda.
Nos versos de Minha Flor, Meu Bebê Cazuza retrata um relacionamento que se protege mais o outro do que se ama. Ele mostra a condição do um ser apaixonado que está ligado ao outro sem conseguir se desprender e por isso deixa-se ser manipulado e dominado em nome desse amor. Platão em Fedro afirma que “é melhor dever um favor a um estranho do que a quem se ama”, atribuindo o amor como um sentimento doentio e que às vezes, usado para manipulação do mais forte perante o mais fraco, neste caso, o apaixonado. Cazuza justifica-se: “que quem ama nessa vida, às vezes ama sem querer”. E é acreditando nesta hipótese que ele esconde a verdade para proteger a amada da solidão. Ele sabe que não é capaz de amá-la com a fidelidade de um bicho amestrado e faz “promessas curtas como um sonho bom”.
Em “Tudo é Amor”, Cazuza expõe a condição do homem. Do homem que veio do pó, que percorre o caminho errado, mas, retorna. Que nasce e deve procurar o fruto proibido, brincando e vivendo sempre em frente afirmando que tudo isso é amor, mesmo que seja apenas por carma ou mesmo uma “pretensão descarada”. É o seu momento de credibilidade religiosa e mítica. Agrade ao Senhor por ver a luz e viver na escuridão, mas não lamenta sua condição. E justifica-se ao Senhor:

Agradeço, mas não me lamento
Por negar também a tua presença
Peço licença pra cantar o amor
E não esperar jamais a recompensa




Para Cazuza só quem sonha, é que pode amar e dizer a verdade, pois o amor não é inviável. Acredita que através do seu canto, ele pode redimir o seu lado mau, e afirma: “porque o canto é pra quem ama”.
Embriaga-se pelo vinho na esperança de ter sua paixão impossível, e canta o amor aceitando a dor. Declara o seu amor de forma exagerada e doce nos versos de Doralina: “eu queria te dar um amor que talvez eu não tenha pra dar”. Ele entende a inocência do prazer, então se desarma afirmando que “já passou e fomos perdoados por todos os deuses do amor”. Possuidor de uma visão ampla sobre o que está por vir, Cazuza acreditava que futuramente tudo será paixão. Vive novos amores e se considera feliz trazendo esta nova emoção concentrada em alguém para amar na rua deserta. Deixa em versos sua poesia medida: “Não temas o meu amor sem vida” e racionaliza este momento dando a receita para quem tem um amor e quer prendê-lo:


Se você quiser
Prender o seu amor
Dê liberdade pra ele
Mas nunca lhe diga adeus...




E explica: “porque adeus é tempo demais”. Deseja amar alguém sem delírios que sirva de consolo e que lhe dê conforto pra viver. Cazuza está ciente de que ter paixão é bom, pois afirma já ter tido mil amores como um Don Juan conquistador que vive intensamente a vida noturna em busca do prazer sem limite e sem se prender a nenhum deles. Mas alerta: “todo grande amor incomoda” e transforma o amor em versos simples, com rimas fáceis como um pacto:


O nosso amor não vai olhar para trás
Desencantar nem ser tema de livro
A vida inteira eu quis um verso simples
Pra transformar o que eu digo...























3.2 A DOR.


A dor é a segunda característica a ser analisada na obra de Cazuza. Para ele o amor e a dor são inseparáveis, o que é uma constante em suas composições. É na dor que o poeta acha inspiração para tecer seus versos e se fazer ouvido como numa cadeia em que as partículas vão se unindo a outras para juntas construírem algo de novo sem ser piegas.
Down em Mim foi inspirada na música Down on me, gravada por Janis Joplin no LP Big Brother & The Holding Company, lançado em 1966. A letra é visivelmente retomada do romancista Charles Bukowski, definindo o local do envelhecimento precoce: “o banheiro é a igreja de todos os bêbados”. É nessa igreja que se dá o viver destrambelhado, verdadeira razão de ser da dor dos anos 80.



Eu não sei o que o meu corpo abriga
Nestas noites quentes de verão
E nem me importa que mil raios partam
Qualquer sentido de razão
Eu ando tão down...






Cazuza deixa-se levar pelo excesso de sentimentalismo derramando em seus versos o estilo dor-de-cotovelo presente em seus ídolos: Dolores Duran e Lupicínio Rodrigues. O sentimental Cazuza rima dia com azia, sem medo de não ser moderno. Faz um apelo e sonha “beijos ao luar em ilhas de fantasias”. E tenta impressionar com planos, olhares e promessas.
O eu lírico Cazuziano é repleto de sofrimento intenso e é através da dor que o poeta se expressa deixando em linhas rimadas, o seu sentimento de perda e de abandono, que é extrapolada na letra de Carente Profissional, com versos que retratam o cotidiano da vida de Cazuza, ao mesmo tempo em que reclama o seu direito e finaliza com o coração fragilizado em sua própria dor e na certeza do seu erro “levando em frente um coração dependente, viciado em amar errado”.
Através de experiências reais, Cazuza se inspira para compor baseando-se apenas pelo enredo da história.    Você Se Parece Com Todo Mundo retrata exatamente o rompimento de uma paixão. Ele sonha demais e se diz maluco pelo ser amado, chegando a conclusão de que o outro é igual a todo mundo. Que a relação amorosa dá-se a partir de interesses, só restando a desilusão. É a visão do belo excitada pela paixão por meio da reminiscência das visões de um poeta urbano.
Finaliza generalizando que todos amam com aceitação de sua própria dor. “Que quem ama costuma exagerar tudo e depois disfarça e foge pelos fundos” em busca de uma outra aventura amorosa.
O contra-senso está presente na letra de Não Amo Ninguém. Cazuza afirma que “não ama ninguém e é só amor que respira”. Transfere para si a incapacidade de conseguir amar porque todo alguém que ama, ama para ser correspondido. E afirma que todo alguém que ele ama é como a amar a lua inacessível num tom de rebeldia e carência, tornando-se em seguida em poesia, na qual a dor funde-se com a visão realista num sonho de um futuro que não chega.
Em Mal Nenhum Cazuza mostra a sua agressividade em parceria com Lobão. Ele pergunta se “nunca viram ninguém triste e por que não o deixam em paz”, já que as guerras é que são tristes, comparando a sua dor com aqueles que vivem eternamente escandalizados com o seu jeito, afirmando ser ele inofensivo:


Eu não posso causar mal nenhum
A não ser a mim mesmo
A não ser a mim...




Cazuza ama e sente dor. E isto é necessário para a sua alma de homem carente que delira com suas próprias desilusões, transformado-as em versos simples. Deixa-se refletir em sua dor quando descobre que a emoção também acabou, lhe restando apenas o choro e as lembranças deste amor:



Pra que mentir
Fingir que perdoou
Tentar ficar amigos sem rancor
A emoção acabou
Que coincidência é o amor
A nossa música nunca mais tocou.




Cazuza transcreve em versos a dor do soldado que sente a falta de sua namorada. Afirma que, “para ser feliz, é preciso tornar-se egoísta”, enquanto os “filhos de Gandhi morrem de fome” e os de “Cristo ficam cada vez mais ricos”. Do soldado que depois da grande noite, “vai esconder a cor das flores e mostrar a dor”. Chora por não entender por que a vida apesar de bela e cruel um dia acaba.
A beleza em Cazuza também é triste. Declara conscientemente que “todos os que vivem no lado escuro da vida são pessoas iluminadas”, num êxtase quase zen budista. É o que notamos nos versos de Completamente Blue: “como é triste a tua beleza, que é beleza em mim também”, em que o agridoce descobre no sol noturno a tristeza de amar sozinho. E a natureza se torna estranha e estéril quando se tem a certeza de quem vive sem amor, pois é morta e não tem dor.
Com traços demasiadamente exagerados, Cazuza se torna depressivo na areia da praia, sentindo a dor de um amor aflito, e declara que “quer ser um herói, mesmo um herói triste”.
Nos versos de Ideologia, Cazuza fala da geração compactada entre os anos 60 e os dias de hoje. Retrato de uma ditadura e uma época, em que tudo era proibido. Ciente de que seus heróis tinham morrido de overdose e que os seus inimigos estavam no poder, Cazuza pede uma ideologia para viver. Declara que o seu”prazer agora é um risco de vida” e deseja não saber quem é por estar vivendo num mundo diferente daquele idealizado pelo garoto que queria mudar o mundo.




Meu partido
É um coração partido
E as ilusões estão todas perdidas...



Em Boas Novas envia uma mensagem aos amigos: aos poetas, cantores do porvir e “mágicos das frases endiabradas sem mel”. Declara ter visto a morte “e ela estava viva”. Quer gritar milhares de metáforas rimadas e fazer das “tripas coração” para transformar o medo em uma oração. Acredita que a “tristeza é uma maneira de se salvar depois”, mesmo que tenha que “forrar as paredes do quarto de misérias” encontradas em folhas de jornal.
Com uma visão mais crítica do mundo, Cazuza afirma que “quer falar sobre outras coisas, outras pessoas”. Compõe Blues da Piedade e dá voz ativa aos miseráveis de alma bem pequena, que não sabem amar, pessoas fracas e covardes que pedem ao Senhor grandeza e coragem. Mostra-se fragilizado ao concluir que “somos iguais em desgraça” e que o seu amor agora é perigoso. Logo contrapõe: “mas não faz mal, eu morro mas morro amando”.
Cazuza critica a burguesia nos versos de Burguesia expondo o seu lado crítico-social. Ele declara que o burguês fede e intensifica: que “porcos num chiqueiro são mais dignos que um burguês”. Atribui seu pesar em relação à vendedora de chicletes, pois a burguesia não repara em sua dor e só olha pra si, num discurso social cheio de mágoas e sentimentos de revolta como um grito do homem sufocado pelas disparidades sociais.
Domina o ódio, vencendo o tédio e na cabeça a dúvida e o medo são os amigos que o mantêm são: “é a minha criatividade que me mantêm vivo”. Sente-se uma cobaia nas mãos de Deus e deseja ouvir um cantor de blues em outra encarnação mística e visionária, num ritmo frenético de versos provocados pela dor e espera da morte:


Se você quer saber como eu me sinto
Vá a um laboratório ou labirinto
Seja atropelado por esse trem da morte...





Atribui a sua própria dor por ser filho único e declara: “que os filhos únicos são seres infelizes”. Solicita que os deuses o protejam mesclando anjos e gnomos, num misticismo sentimental, pois tudo é possível em uma outra vida futura, como fuga da sua realidade que é trágica e dolorosa.
O lado brasileiro de Cazuza é expresso na letra de Portuga. É uma homenagem aos portugueses com traços literários entre poesia e prosa. Desmistificando a posição do Brasil: “porque a grande piada é o Brasil”. Os versos retratam o vinho, o fado, o porto e declara-se “triste, quase um portuga triste”, contradizendo-se em seguida afirmando que “às vezes, bebe e dança” e é “doce como toucinho no céu”, num frenético frenesi de felicidade por ser um brasileiro capaz de viver e sentir dor sem sair do tom.
Cazuza conhece o seu erro, mas está ciente de estar no caminho certo: “eu também errei, estamos na estrada certa, a trilha louca do poeta”. Por isso não repara na manha do poeta, porque também está ciente de que “não existe mais nenhum futuro, nenhuma saudade”. Está desprendido de qualquer sentimento em relação ao passado e sofre por não ter esperança no futuro. Ele reabre antigas feridas trazendo o passado para o presente. Declara “um novo tempo de paz” e sem paixão, no qual não há sofrimento e nem ressentimento por palavras que foram ditas. Reage e afirma que “o que antigamente era vida ou morte, foi ficando real, mais forte”, e que “nossos corações já não sofrem do mal da última palavra”.
O ano de 2000 foi uma incógnita para Cazuza. Em Perto do Fogo, parceria com Rita Lee, deixa-se ficar em estado imaginário ao se questionar como será o ano 2000. diz que “não vai mudar nada” e declara que “vai tá tudo igual”. Em Blues do Ano 2000, volta ao tema:

Se até o ano 2000 o mundo não acabar
E eu estiver vivo na lua ou num bar
Eu sei que eu sempre vou chorar
Blues é assim, baby, assim...




Denomina-se um não romântico e ao mesmo tempo sofre “por um cão, mas não por um coração”, alegando ser essa a sua natureza. Desejo que satisfaz e pede muito mais: “quebra em pedacinhos o meu coração de pedra”. Sente-se só revivendo um passado de um tempo em que ainda era criança, com medo do escuro e “via o infinito sem presente, passado ou futuro”. E ainda diz mais nos versos de Poema:
De repente, a gente vê que perdeu
Ou está perdendo alguma coisa
Morna e ingênua que vai ficando no caminho
Que é escuro e frio, mas também bonito
Porque é iluminado
Pela beleza do que aconteceu
Há minutos atrás...




Mostra-se áspero e sem esperança. “Corre perigo e como toda a pessoa que vive”, sabe que “a única coisa que o espera é exatamente o inesperado”. E espera alcançar a “paz antes da morte, antes que seja tarde demais”.
Cazuza adapta versos em versos de Clarice Lispector na letra de Que o Deus Venha, texto retirado do livro Água Viva. Afirma que é “inquieto e desesperançado”, embora tenha amor dentro de si. Só que ele não sabe usar o amor e “às vezes arranha feito farpa”. Sente-se mais profissional e compõe Tapas na Cara composta para ser cantada por Ângela Maria, que a gravou realizando o sonho do poeta em ver uma composição sua interpretada por uma “grande voz da sua infância”.   



Me perdoa estes tapas na cara
Os meus olhos já não podem ver
Cega, estou de amor e de medo
De perder mais um dos teus segredos.



















3.3 A SOLIDÃO


A solidão é abordada na obra de Cazuza como sendo ela, a base que sustenta suas composições. Ela inspira o poeta e faz com que ele saia em busca do preenchimento deste vazio, tentando encontrar algo ou alguém que o livre de sua condição de ser solitário e carente. O maior abandonado quer ser livre e precisa superar sua solidão mesmo que seja preciso inventar um amor.
Por Aí é considerada uma letra autobiográfica. Cazuza transcreve em seus versos seus gestos, suas manias, como “torcer o cacho e roer as mãos”. Ele se sente tão só que chega a esquecer o que é a verdade e o que é a mentira em volta dele. Perde-se em sua solidão deixando-se ficar no seu “cantinho com uma luz refletida em seus olhos”, procurando “um alguém para ir dormir”. Estar sozinho é associado ao sentimento de abandono: “o meu amor foi embora e só deixou pra mim um bilhetinho todo azul”. O seu amor parte e o deixa sozinho e Cazuza justifica o erro desse amor:



É eu vou pra Bahia
Talvez volte qualquer dia
O certo é que eu tô vivendo
Tô tentando
O nosso amor foi um engano...





Na letra de Largado No Mundo, Cazuza faz uma declaração a todos os “poetas vagabundos”. A todos que vivem de “esquina em esquina, de vintém em vintém”. Podemos relacionar este vagabundo ao vagabundo da geração beat, citado por Jack Kerouac, Neal Cassady e Allen Ginsberg, que não se importam onde estejam, mas sim fazer qualquer viagem. Cazuza traça os seus próprios planos, transforma-se em aprendiz e mostra-se como um poeta iniciante. Blues do Iniciante retrata esta condição de iniciante em um meio já estruturado e composto por grandes poetas. Ele deixa claro que vai ao encontro destes poetas para compor uma letra que não é direta e que, antes de entendê-la, tem que analisá-la. Como segue:



Aonde, peixe safo
Eu nado até você
Até o teu mundo
Que eu também procuro
Nesse quarto sem luz
Nessa ausência de tudo.






Cazuza iguala-se a compositores de uma outra geração, mas que em comum, possuem toda uma temática de vida: boemia e fossa. Trata-se de uma ligação entre Cazuza e Nelson Gonçalves, Lupicínio Rodrigues e Ataulfo Alves, percebível nos versos de Maior Abandonado, em que ele se confessa “estar perdido, sem pai e sem mãe”, pedindo uma mão que o acolha e o salve da solidão crua das ruas, que serve de inspiração para o poeta e ao mesmo tempo, uma fuga para a solidão que o cerca.
Demonstra a sua carência afetiva, transformando a vida em arte, retratando um problema social, o menor abandonado, em forma de crítica contundente:


Eu tô pedindo da tua mão
Me leve para qualquer lado
Só um pouquinho de proteção
Ao maior abandonado...



Implora desesperadamente a presença do outro só para não ficar sozinho: “me ame como a um irmão” mesmo que sejam mentiras sinceras, pois o interessam. Cazuza reflete a vida e afirma que ela é bem mais perigosa que a morte. Sente-se sozinho mesmo acompanhado e confessa que essa solidão a dois faz calor e depois faz frio, por estar ciente de que a sua companhia é apenas passageira e o que o espera é a solidão novamente.
Com sensibilidade, Cazuza expõe sua solidão em Medieval II. Pede a mão e o beijo para suprir a saudade provocada pela distância que o separa do seu amor. Desnuda-se na letra de Só As Mães São Felizes, usando imagens fortes para falar do seu preconceito em relação à posição das mães: “são para serem colocadas num altar, para serem veneradas”, transformando-se em um Cazuzaedipiano perseguido pelo amor materno, homenageando os poetas malditos, os cantores e todos os loucos que têm na vida.



Você nunca ouviu falar em maldição
Nunca viu um milagre
Nunca chorou sozinha num banheiro sujo
Nem nunca quis ver a face de Deus...





Ao compor a letra de Completamente Blue, Cazuza se refere à insatisfação interior. A insatisfação que acompanha o poeta seja para onde for. Dá ênfase a um amor que chega, sai e some e que o deixa tão só. Inspira-se na bossa nova e transforma versos sentimentais que refletem a sua realidade viva cheia de solidão. Da solidão de quem vai para as ruas à procura de abrigo, de um amigo. Do ser inanimado que vaga pelas ruas desertas, que vaga sob as pedras do Arpoador e trava um diálogo com alguém, mesmo sendo este alguém, um inimigo.
Deixa-se ficar no meio da noite na certeza de chegar a algum lugar. Tenta encontrar em seu canto o sentido para a sua vida e explica: “porque o meu canto é a minha solidão, é a minha salvação”. Cazuza insere o seu lado saudosista nos versos de Oriental atribuindo ser a saudade, a principal característica dessa letra. Ele sabe que nada nesse mundo é nunca mais e que o sol se põe e a alvorada vem como forma de recompensa para um coração tão só e doído.
“A solidão vai ficar grudada nas coisas que você negar”. Vai mostrar “que é um desperdício comum dois viver vida de um”. E que o tempo serve de consolo como um abraço certo de um amigo. E dispara:



Porque o passado me traz uma lembrança
De um tempo que eu era ainda criança
E o medo era motivo de choro
Desculpa para um abraço, um consolo...





  
E as ilusões se perdem transformando a vida num encontro em nenhum lugar distante de sentido, como “uma poesia escrita num papel higiênico depois de se limpar com as tristezas de sempre”.
Amor, dor e solidão estão presentes nas composições de Cazuza como elementos para a sua inspiração. Entendê-los em sua essência é captar os sentimentos que são refletidos de forma poética sem limites estipulados e uma estética obrigatória. O poeta deixa-se apenas ser levado por seus desejos e é através deles que a arte de compor um verso se faz necessário desmistificando assim, o istmo que há entre poesia e letra musical.            















     


CONSIDERAÇÕES FINAIS




Nesta análise observou-se que a letra de música é uma poesia. Que não há diferenças entre elas quando tratadas literalmente do ponto de vista estético em sua formação. Que o letrista é o poeta que constrói sua obra. Ele a concebe e a intensifica como objeto real. Funde-a sem divisões e a caracteriza pelo seu tema. Tais características se fazem presentes na poesia de Cazuza tanto pelo seu caráter ultra-romântico quanto pela sua condição na atualidade.
Também teve como objetivo trazer o poeta Cazuza para o mundo literário como parte integrante e inseparável deste universo. O tema foi escolhido a partir de letras    que    retratam as características poéticas predominantes no período ultra-romântico: o amor, a dor e a solidão.
É possível então inserir a obra deste poeta à Literatura Brasileira como objeto de estudo acadêmico não só ao

Publicado no site: O Melhor da Web em 30/05/2008
Código do Texto: 4158
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