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Jaol341 - JEOVAH ABREU DE OLIVEIRA
JEOVAH ABREU DE OLIVEIRA
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O INTERNATO
08/02/2010
Autor(a): JEOVAH ABREU DE OLIVEIRA
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‘O Diretor, O Regente, o Zorro e Eu’.

(Recordar é viver: encontrei estes rabiscos quando muito tempo após, folheava meus livros e cadernos do ginásio. Uma estória que tinha escrito, e não mais me lembrava)

Estava jogando a maior pelada com os outros internos, no campinho de chão batido do ginásio (que tinha um nome comprido de um ex-governador do Estado), quando o gerente com um aceno de longe indicou que queria falar comigo – uma luz acendeu na minha cabeça ainda quase adolescente e percebi que por descuido tinha deixado acesa a luz da sala de estudo quando saí para tocar a sirene anunciando o descanso para o jantar. Todos nós saíamos correndo após a última aula da tarde, com o intuito de jogar uma ‘pelada’ antes do jantar. O último a sair tinha que apagar as luzes. Mesmo durante o dia, quando nublado se as lâmpadas não fossem ligadas não se conseguia ler ou escrever direito. Os regentes tomavam conta para que as regras fossem cumpridas. Na escala da semana tinha tocado pra mim a tarefa de não deixar as luzes acesas, mas neste dia acabei esquecendo. Imaginei o que estaria me esperando; o regente não gostava de mim, por uma pequena falta poderia me tirar o sábado e o domingo (o sábado e o domingo eram sagrados para nós. Distante de nossas famílias era nestes períodos de folga e lazer que eliminávamos a tensão: saudade de casa, maior liberdade sem a pressão da vigilância, esfriávamos a nossa cabeça; ir ao cinema, ver o seriado do Zorro, tomar um sorvete, e olhar as meninas que eram inalcançáveis muitas vezes, mas podíamos sonhar).   
Saí do banho, troquei de roupa com o colega ao lado falando: você viu o gol que eu fiz caramba, nunca mais vou fazer outro igual - O outro disse: e você, viu a solada que levei daquele brutamonte, qualquer dia pego ele de jeito... não quis prestar atenção na conversa e desci pro jantar, mas antes tinha que procurar o regente. O ginásio era uma construção em U: no centro, o pátio de recreio; na frente em dois pavimentos, ficavam o setor administrativo e os dormitórios dos internos. Na ala direita, as salas de aulas e banheiros femininos, na ala esquerda a sala de estudo, o almoxarifado, o refeitório, e banheiros masculinos. Havia ainda nos fundos do pátio um palco, que servia para peças de teatro, declamações, reuniões dos alunos e professores, etc. Uma escada em dois lances na entrada do prédio levava aos dormitórios. Era uma construção sólida, e para a pequenina cidade um edifício imponente.
Encontrei-me com o gerente no corredor de acesso ao refeitório e perguntei? – Você queria falar comigo? –Foi logo dizendo: você deixou as lâmpadas da sala de estudo acesas, e era o responsável por apagá-las. É verdade, na pressa acabei esquecendo. - Pois é: pela sua irresponsabilidade vou lhe cortar o sábado, esta semana você pode preparar os livros para estudar, não terá saída.
O regente era um cara magrelo e alto com uma bola vermelha no nariz que parecia tremer como se fora uma espécie de fungada toda vez que ficava mais nervoso. Estudava na terceira série e eu na quarta, mas ele era muito mais velho e tinha que trabalhar para pagar os estudos. Eu era um rapazote magrelo e sem condições de argumentar. Falei apenas: mas você vai me tirar o sábado, só por que não apaguei as luzes? Ele arrematou: você queria mais? – Arremeti: você não acha isso uma covardia?    Uma bela de uma perseguição? Então por causa disso vais perder o sábado e o domingo, falou o regente espumando pela boca e com uma tremura nas ventas. Saí resmungando e chorando, mas não havia mais jeito, pensei: ficar preso sábado e domingo aqui sem poder assistir ao seriado do Zorro no domingo, vai ser de doer. Este regente era uma parada, já era a terceira vez que me tirava o sábado. A segunda vez por causa de uma briga me tirou também o domingo, e agora me tira o sábado e o domingo. Parece perseguição deste cretino... Com os olhos vermelhos de tanto chorar fui para a fila do refeitório.
Era comum que pelos menos 8 a 10 alunos perdessem as saídas dos fins de semana por razões diversas: brigas no futebol, bolinhas de papel em sala de aula, ler Gibi na sala de estudo ou nas aulas chatas, entrar na cozinha fora de horário, mexer com as meninas, dizer palavrões, brigar, ser pego no banheiro matando aulas ou masturbando, ver as meninas de short fazerem ginástica através do basculante do banheiro e uma infinidade de outras faltas graves ou leves. A perda da saída era em função da quantidade e da gravidade. Mas era comum o regente, por covardia e abuso de poder, transformar uma falta leve em grave ou aumentar a quantidade das mesmas. Quem não caísse nas graças do regente ou não fosse seu bajulador, poderia com certeza ir para o seu caderninho e, era comum o safado do regente arranjar faltas e fazer chantagem, só para levar alguma vantagem. Para não perder alguns sábados e domingos era comum entre alunos idiotas e trouxas executarem esta prática nojenta da bajulação. O puxa-saquismo era feito de vários modos: pagar o cinema pro bandido, dar metade dos doces que as mães dos alunos, saudosas, enviavam sempre. Ajudar a fazer os trabalhos de aula e uma série de outras benesses. O puxa-saquismo por causa da represália dos colegas era feito sub-repticiamente. Caso algum colega descobrisse, era razão para quase linchamento e o cara sofria por mais de um mês. Mas havia os ‘carrapato’, aqueles que não largavam o regente de maneira alguma, de onde o dito: ‘se atirar no saco do regente pega na mão do fulano’. Mas comigo não pegava e, vira e mexe, estava lá eu perdendo um sábado e às vezes o domingo. Como eu não dava colher de chá pro bandido, achava que o ‘careta’, estava começando a me perseguir. Desta feita fiquei fulo, não só por perder o seriado do Zorro no cinema local, mas também porque iria perder o ajantarado de domingo, na casa de um colega do externato, meu conterrâneo. Além disso, tinha para sua irmã olhares melosos e lânguidos e, uma esperança de ser correspondido, mas ela nem sabia de minha existência. Mesmo assim eu esperava que um dia ela tivesse olhos pra mim... Seria o céu. No momento a minha vontade era matar o regente: atirar nele eu não podia, pois não tinha revólver nem espingarda; dar uma facada não me parecia factível, o cara era bem mais forte que eu e, poderia facilmente me tomar a arma; o melhor seria colocar veneno de rato na sua comida, mas era muito difícil entrar na cozinha e além do mais as refeições eram coletivas e não havia jeito de individualizar a dose, podendo assim cometer um assassinato coletivo. Mas, o que achava de verdade é que devido a minha formação cristã eu não teria era coragem de afrontar a Deus causando um homicídio. Assim, comecei a aceitar resolutamente o meu castigo. Talvez apenas, eu devesse confessar-me mais tarde com o padre, sobre esta minha vontade criminosa: esmagar e triturar o regente. Fui dormir com a cabeça zonza, os olhos marejados e o coração, doendo... ‘porra’, perder o sábado ainda vá lá, mas o seriado do Zorro no domingo... é ser muito azarado. Só porque não apaguei as luzes da sala de estudo... e, proferi mais alguns palavrões que só Deus deve ter escutado. Agora estava em falta também com Deus, pelas blasfêmias. Mais choro, debaixo das cobertas. Mas de alguma forma este regente haveria de pagar.
Chegado o sábado, na hora da saída dos alunos, o regente pegou a lista de alunos faltosos e soltou a sua voz de carniceiro: os seguintes alunos não poderão sair. O meu era um deles.
Inconformado, segui com os demais para a sala de estudos. Abri meus cadernos e comecei a fazer os trabalhos da próxima semana. Vi quando um colega do meu lado tirou o seu caderno encapado e começou a estudar: ‘as aventuras do Cavalheiro Negro’ - era a técnica que muitos utilizavam para fazer passar o tempo no castigo e não ser percebido pelo regente. Encapava-se o Gibi e todos pensavam que era um caderno normal.
A mim me parecia que a sorte ia mudar; algo de bom iria acontecer e pelo menos o domingo não estaria perdido.
Entrava-se às 19h30 para a sala de estudo e às 22 horas subia-se para o dormitório. O silêncio era total no ginásio, somente os grilos no lote vago ao lado eram ouvidos. Pouco após todos os alunos faltosos entrarem para o seu castigo, adentra a sala, o Diretor do educandário. –‘Boa noite... Os alunos levantaram os olhos e viram aquele homem imponente de quase 1,90 metros, já meio careca, com grossas lentes de aumento, vestido com seu indefectível terno de linho branco, de postura ereta muito embora a idade... Boa noite responderam respeitosamente os criminosos’.
O Diretor, um descendente de espanhóis, professor de história antiga, matéria pela qual me apaixonei, era um mestre vibrante, dava suas aulas sem cadernos e sem livro. Ia simplesmente dissertando sobre os Egípcios, Hebreus, Romanos, Fenícios e Gregos. Era como contos de fada e eu me deslumbrava, conclusão: só tirava nota 10. Ele se encontrava comigo no corredor do ginásio, batia nas minhas costas e dizia: continua assim Campos, continua assim, mas nas outras matérias também... Ontem me encontrei com seu pai, lá na câmara de vereadores. Depois de certo tempo fiquei sabendo que ele também era vereador como meu pai e do mesmo partido. Todos tinham muito medo dele, pois era um homem forte e severo, com voz grave e alta e se fosse preciso partia para a ignorância, como aconteceu um dia com um nosso colega, o Gebara. O rapaz adoecera de madrugada com forte infecção intestinal. Levantara-se para ir ao banheiro que era bem distante, no piso inferior, e não agüentando, foi ‘cagando’ escada abaixo e corredores, até ao banheiro. As escadas terminavam na entrada do ginásio e todos que entravam viam aquela ‘cagança’ toda. O Diretor ao ver aquilo pela manhã mandou chamar o ‘disciplina’. Quem fez isso? Foi perguntando. – Foi o Gebara, disse o ‘disciplina’. –Me chame o garoto. Quando o garoto chegou à sua frente, não se agüentou, e sem mais espera, largou a mão pelas fuças do Gebara que foi ao chão no primeiro golpe... Seu desgraçado, como foi fazer uma coisa destas, levantou o aluno e deu-lhe mais uns dois tabefes pela cara. Faça o favor de pegar o balde com desinfetante e você mesmo vai fazer a limpeza. - Sim senhor... e lá foi o Gebara, humilhado e meio desidratado de tanta ‘cagança’ fazer a limpeza da sua evacuação. Todos que viram a sena ficaram abismados com a violência do Diretor, tão educado e sereno em outras ocasiões’. Assim era o diretor, bom e mau ao mesmo tempo. Mas eu sempre fui protegido por ele, talvez por ser colega do meu pai na vereança da cidade ou pelo fato do meu velho ser um colaborador do ginásio. Na verdade ele me estimava pois era bom aluno e não via as minhas pequenas travessuras como falta.
–O Diretor olhou para os ‘prisioneiros’... Mas quantos alunos presos! Vocês vieram aqui para estudar ou para anarquizar? Quem desejar ser verdadeiramente um homem de futuro tem que ter disciplina. O ideal era que todos pudessem estar gozando o direito do descanso semanal, para refazer as ideias e ter estímulo para o estudo. Mas uma coisa é certa, sem disciplina tudo vira bagunça e aqui não é a casa de vocês. O Diretor falava olhando nos olhos, todavia alguns mais envergonhados ou com uma dose maior de temor, não conseguiam levantar suas cabeças e simplesmente fitavam a carteira a não mais que uns cinco centímetros das suas cabeças. – Vocês são homens ou ratos? Levantem estas cabeças. Errar uma ou duas vezes em falta leve é passível de perdão, agora faltas repetidas e graves, necessitam correção e isto é para o próprio bem de vocês. Bem, continuou a falar: vamos ver quais foram as faltas que cometeram; chamou o regente e pediu a lista negra. Iniciou chamando pelo nome, e informando o tipo de falta: Aristides - empurrou o colega na fila gerando confusão e briga na entrada das aulas. O Diretor mandou o rapaz levantar e falou: este tipo de brincadeira que parece ser inocente pode causar graves problemas culminando inclusive em lesões corporais... como é a primeira que você comete este tipo de falta vais perder o sábado, mas pode sair no domingo, e cuida-te para que não aconteça mais daqui pra frente... e continuou: Reinaldo - segunda reclamação dos professores - você não tem feito os deveres de casa, tem alguma justificativa? Como o aluno não se manifestou, disse: então vais perder o sábado e domingo, que é para dar tempo de colocar todos os seus deveres em dia, e se continuar a não cumprir suas obrigações, vou ter que falar com seu pai. Quando chegou ao meu nome, tremi nas bases e meus pés pareciam que não se encostavam ao chão, e a suadeira pelas mãos molhava a carteira, não consegui olhar diretamente em seus olhos, cabisbaixo esperei... chamava-me pelo sobrenome que não era meu, mas de meu pai. - Campos? Fitei-o então e ele disse: você tem sido excelente aluno, o que foi que fez de tão grave para perder o sábado e domingo? - Ia balbuciar alguma coisa, quando o regente se aproximou e disse: esse rapaz não cumpriu com sua responsabilidade de apagar as luzes da sala de estudo e foi jogar futebol. -Ahn... Mas é a primeira vez e isto não é uma falta grave, como é bom aluno, está perdoado. Pode sair. –Levantei-me, sem olhar pro Diretor e para o regente. Com sinceridade, eu não queria constranger o ‘disciplina’ que viu sua autoridade ser questionada, mas no fundo eu dizia... Ah miserável... Tomou? Prenda-me agora, mas a sessão de cinema do sábado, já tinha perdido, e então, resolvi apenas ir até ao bar da estação e tomar um guaraná com os outros colegas e passear de frente ao cinema, fazendo o ‘footing’. Porém a matinê com o seriado do Zorro eu não ia mais perder, nem o ajantarado na casa do meu colega com a esperança do olhar meigo de sua irmã, a musa inalcançável dos meus sonhos de quatorze anos.
-No domingo de manhã, com a minha melhor roupa, fui à missa agradecer a Deus e de lá direto para a casa do meu colega de externato. Às duas da tarde estava com o bilhete na mão para assistir a mais uma matinê de cinema - do meu herói predileto - As Aventuras do Zorro, com o meu colega e a musa... Já não tinha mais raiva do regente.
Bendito diretor.









Publicado no site: O Melhor da Web em 08/02/2010
Código do Texto: 50246
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