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PAULO MONTEIRO
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Luiz Menezes
21/05/2010
Autor(a): PAULO MONTEIRO
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Luiz Menezes

Paulo Monteiro

Luiz Menezes, filho de Franklin Menezes e Carlota Carvalho de Menezes, nasceu em Quarai no dia 20 de maio de 1922 e faleceu na sua cidade natal em 12 de outubro de 2005. A convivência com o modo de produção semifeudal da fronteira rio-grandense da primeira metade do Século XX marcou em definitivo sua obra.
A exemplo de tantos outros quaraienses que se destacaram na história literária do Rio Grande do Sul, mudou-se para Porto Alegre. Ali, em 1952, iniciou sua carreira de radialista. Convidado pelo já consagrado poeta Lauro Pereira Rodrigues passou a integrar a equipe do programa “Campereadas” na Rádio Gaúcha. Naquela emissora apresentou programas, cantando e interpretando acompanhado por ele mesmo ao violão. Além disso, apresentou programas de rádio-teatro, escrevendo peças e participando como ator.
Em 1954 escreveu “Piazito Carreteiro”. Gravada, contribuiu para aumentar a popularidade do Ator, tornando-se um clássico da música regional gaúcha. Em 1955 transferiu-se para a Rádio Gaúcha, onde se uniu ao uruguaianense Darcy Fagundes (1925 – 22 de junho de 1984) para produzir e apresentar o “Grande Rodeio Coringa”. O programa, iniciado em 1º de maio daquele ano, ia ao ar das 20 horas às 22 horas. Durante mais de 15 anos foi o programa de maior audiência do rádio sul-rio-grandense, apresentado sempre pela dupla inseparável de radialistas.
Pelo “Grande Rodeio Coringa” passaram os mais importantes cantores e compositores gaúchos do século passado. Teixeirinha e Mary Terezinha, Gildo de Freitas e Os Irmãos Berttuzzi, Os Mirins e Os Três Chirus tornaram-se universalmente conhecidos ao divulgarem suas músicas no programa.
O Grande Rodeio Coringa contribuiu para a consolidação do Movimento Tradicionalista Gaúcho. Nas mansões e nos barracos das grandes cidades; nas sedes e nos galpões das estâncias e fazendas; nos ranchos dos posteiros e nos veículos automotores, tanto no Rio Grande do Sul quanto nos mais diversos pontos da Federação, a música e a poesia gauchesca eram acompanhadas e admiradas, sob os elogios de Darcy Fagundes e Luiz Menezes.
Luiz Menezes escreveu diversas letras de música, entre elas “Última Lembrança”, que se transformou em outro clássico do cancioneiro popular do Sul. Quase todos os conjuntos regionais gravaram-na. O próprio Luiz Menezes gravou 4 LPs e 1 CD. Além disso, foi colunista dos jornais “A Hora” e “Diário de Notícias”, de Porto Alegre. Introduziu a milonga, ritmo platino, em nosso Estado, com a “Milonga de Contrabando”. Recebeu diversos prêmios por suas atividades culturais. Funcionário público estadual, aposentou-se como Diretor do Departamento de Diversões Públicas do Estado do Rio Grande do Sul.
Foi casado com Haydeé Menezes, com quem teve sete filhos. Viúvo, casou pela segunda vez, tendo mais um filho. Aposentado voltou a residir em sua terra natal, onde foi secretário municipal da Cultura. Ali escrevia uma crônica semanal na “Folha de Quaraí”, que era apresentada por ele mesmo na “Rádio Quarai”.
Em vida publicou quatro livros: “TOPA AMARGA” (Martins Livreiro – Editor, Porto Alegre, 1982); “Além do Horizonte” (Martins Livreiro – Editor, Porto Alegre, 1986); “Chão Batido” (Martins Livreiro – Editor, Porto Alegre, 1995) e “50 ANOS DE POESIA: ANTOLOGIA POÉTICA” (Martins Livreiro – Editor, 2ª Edição, Porto Alegre, 2005). Numa espécie de nota introdutória que escreveu para “TROPA AMARGA”, in titulada “RAZÃO DE UM LIVRO”, assim se expressou quanto à reunião de seus poemas em volume:
“Quando apartei alguns dos meus versos para esta coletânea, não tive a preocupação nem a veleidade de pensar numa obra poético-literária. Jamais me atreveria a tanto.
“Tive, no entanto, o desejo de registrar momentos de uma caminhada marcada de barro e sol. Pois sempre acreditei que o verso é o mate-amargo do canto solitário.
“E tantas vezes mateei solito, que me atrevi a reunir esta tropa orelhana e xucra, para oferecer àqueles que, como eu, costumam matear em silêncio...
Foi por isso. Tão somente por isso.”
No segundo livro, em outra “RAZÃO DO LIVRO”, assim se expressa:
“Quem leu meu primeiro livro, é possível que busque encontrar em ALÉM DO HORIZONTE, a mesma terminologia, os mesmos temas sociais com estórias de ranchos: Suas lutas, mágoas e vicissitudes, que foram a tônica em TROPA AMARGA.
“Por certo que os encontrará ao deparar com o homem perdido no asfalto em seu êxodo rural, na busca da urbana e amarga existência, vã esperança dos que sonham ALÉM DO HORIZONTE.
“Apunhalou o campeiro
mais que a desgraça, a derrota;
seus pés descalços, sem botas
já não pisam na flechilha...
“Continuo contando estórias, porque sem estórias eu não existo em versos.
“Por natureza e formação, sempre me enterneceram os lamentos destes seres sofridos e incompreendidos. Gente oriunda do campo ou das cidades interioranas, que apesar de tudo ainda sonham, porque:
“E todos disseram
que além do horizonte
há um mundo tranqüilo
que todos esperam
um dia encontrar....
......
“Por isso o ALÉM DO HORIZONTE.
“Tão-somente por isso.”
Ao confessar que o enternecimento pelas vítimas do êxodo rural, sempre esteve presente nele, por natureza e formação, toca numa característica de muitos poetas da Fronteira Oeste, como Juca Ruivo, Laci Osório e Lila Ripol. Esse enternecimento está presente em tantos outros poetas gauchescos, como Aureliano de Figueiredo Pinto e Lauro Rodrigues, para falar nos mais conhecidos, o que desmente a afirmativa de que a gauchesca seria de todo alienada à vida real do homem rio-grandense.   
Faleceu no dia 12 de outubro de 2005. Sua morte repercutiu nacionalmente, da tribuna do Senado Federal, o senador gaúcho Paulo Paim resumiu a importância da obra do poeta quaraiense com estas palavras: Luiz Menezes é uma verdadeira legenda no cancioneiro popular gauchesco, um dos mais importantes poetas da nossa terra”. Cantou os desgarrados dos campos e cidades em versos que ficaram célebres, como os de “A MORTE DE PEDRO NINGUÉM”, um dos poemas gauchescos mais conhecidos e declamados de todos os tempos.

A MORTE DE PEDRO NINGUÉM

Veio a cantiga da noite
na garupa do aguaceiro
cabresteada pelo vento.
Até um relâmpago alçado
andou pateando o espaço
preludiando um temporal..

Mas oigalê como é brabo
este tal de mês de agosto!

A voz do preto Clarindo
veio do fundo do rancho
que se velava o finado:
Ó Juca, vai lá na venda
e compra dois real de “gayeta”
e um naco de fumo grande
que a noite vai ser comprida...

Lá fora o céu era negro
assim como um campo grande
que fora queimado há pouco.

O Juca pediu a bênção
pra seu padrinho Clarindo
e se enfurnou noite a dentro
na direção do bolicho.
Agora só a luz das velas
clareava os rostos sombrios
da peonada no velório
onde o respeito era pouco...

Pois entre risos e ditos
iam se contando causos
de peleias, de carreiras
e de chinas mal-domadas
esquecidos do finado.

E quando o preto Clarindo
compreendendo o desrespeito
pelo coitado do morto,
tirou uma longa tragada,
pigarreou como pensando
para afinal sentenciar:

O homem que nasce pobre
é como um cavalo xucro...
É pealado pela vida,
sofre a doma das tristezas
até que um dia se amansa
perde a vontade e a fé...
Depois já sem serventia
morre na beira do alambrado
esquecido... sem ninguém!

Vejam vocês nesta noite,
o Pedro já não existe.
Amanhã se vai o corpo
pois a alma do coitado
de há muito já estava morta...

Andava assim como andam
miles de guasca sem rumo,
fugindo pelos atalhos
do povoado e das taperas.

Bueno total é a vida!
E amanhã será um de nós...

Até a viúva quando saiba
que o pobre Pedro morreu
decerto vai chorar pouco.
Chorar é pra quem tem tempo
e o tempo pra pobre é escasso
pra se lastimar à toa,
quando já não se tem remédio
nem a esperança num cobre.

Livino, me passa a canha
que é pra esquentá o pensamento!

Caramba como faz frio
neste tal de mês de agosto!
………………………..

Um trovão rolou no espaço.
E a chuva seguiu cantando
no funeral da saudade...

Saudade? Ora, saudade!
A saudade não tem tempo
de chorar Pedro ninguém!!

Luiz Menezes procura evitar cair no puro panfleto, o que datando o poema, limita a universalidade indispensável à permanência estética do poema, confundido um tom lírico à temática social. Essa prática é mais presente no livro “Além do Horizonte”, dedicado à memória de sua primeira esposa. É como se fundisse num só dois poemas sobre o mesmo tema: um social e outro lírico. Vemo-lo no poema que dá título ao livro.      

ALÉM DO HORIZONTE

E todos disseram
que além do horizonte
há um mundo tranqüilo
que todos esperam
um dia encontrar.

E todos falaram
cantaram, gritaram
que além do horizonte
existem as coisas
mais lindas do mundo
de um mundo tão lindo
formado de luz...

Disseram somente
pois ver ninguém viu.

Não viu a criança
que ontem nasceu
e os olhos abriu
sem nada enxergar;
não viram o moço
e a moça bonita
que sonham casar
e a vida viver;
Não viu o velhinho
de vida no fim
que vive rezando
na eterna esperança
de muito viver...

E todos disseram
que além do horizonte
– arco-íris, miragem    –
só existe o amor...

Palavra tem força
e todos tem fé...

Disseram somente
pois ver ninguém viu.

E eu que andei
e andei e andei,
e um dia cheguei
em cima do monte,
vi outro horizonte,
e outro, mais outro,
seqüência de rumos
levando pra um mesmo
caminho sem luz.
E louco gritei:
Gritei por piedade,
gritei de saudade,
gritei de tristeza,
de falta de amor.

Um dia voltei.
Voltei sem contar
pra o moço, pra moça,
pra o velho, pra todos
que é tudo mentira:
O além do horizonte
é apenas um dia que volta amanhã...

Por isso eu suplico
ó Deus, meu Senhor,
que deixes nos sonhos
do moço, da moça,
do velho, de todos
o mundo bonito
que além eu não vi;
e que cantem cantigas
de mil esperanças,
cantigas bonitas
que eu fiz e perdi.

Luiz Menezes cantou o amor em muitos versos. Boa parte deles musicados foram cantados em programas de rádio e CTGS, contribuindo para aumentar a fama do poeta.    “Última Lembrança” tornou-se uma das canções mais populares no Rio Grande do Sul. Canta a saúde, um dos temas eternos para todos os poetas da Língua Portuguesa.

ÚLTIMA LEMBRANÇA

Eu hei de amar-te sempre, sempre além da vida.
Eu hei de amar-te muito além do nosso adeus.
Eu hei de amar-te com a esperança já extinguida
de que meus lábios possam ter os lábios teus.

Quando eu morrer, permita Deus que nessa hora
ouças ao longe o cantar da cotovia.
Será minha alma que num canto triste chora
e nessa mágoa o teu nome pronuncia.

Eu viverei eternamente nos cantares
dos pobres loucos que dos versos fazem o ninho.
Eu viverei para glória dos pesares
onde quase sucumbi nos teus carinhos.

Eu viverei no violão que à noite tomba
ante a janela da silente madrugada.
Eu viverei como uma sombra em tua sombra,
como poesia em teu caminho derramada,

pois nem o tempo apagará nossos amores
que floresceram de ilusão febril e mansa.
Quando eu morrer, eu viverei das tuas dores,
pois te levando em minha última lembrança.

Os seguidores do marxismo vulgar afirmam com todas as letras que a literatura gauchesca é alienada. Há tempos que essa assertiva caiu por terra graças a estudos consistentes como “No Entretanto dos Tempos – Literatura e História em João Simões Lopes Neto” (Martins Fontes, São Paulo, 1987), de Ligia Chiappini, sobre a obra daquele que é considerado o mais importante regionalista brasileiro de todos os tempos. Luiz Menezes e outros poetas seus contemporâneos foram homens identificados com as idéias sociais do seu tempo.
Em sua maioria identificavam-se com o pensamento social do Partido Trabalhista Brasileiro – PTB –, continuador do velho partido Republicano Rio-Grandense. Dentro desse partido filiavam-se às concepções reformistas de Alberto Pasqualini. Isso confere aos seus versos uma tonalidade cristã. Alguns, como Lauro Rodrigues, mestre de Luiz Menezes, e este mesmo ainda que escrevendo poemas “revolucionários” expressarão um visível anticomunismo. Aí encontraremos as raízes (preconceituosas) da alienação vista pelos marxistas acadêmicos, vulgarizadores das concepções marxistas adquiridas através de leituras na maioria das vezes por vias transversas.
Lauro Rodrigues e Luiz Menezes continuaram sua militância partidária nos chamados “anos de chumbo”, iniciados em 1º de abril de 1964, com o movimento militar que interrompeu os princípios e práticas democráticos no Brasil.
Muitos poemas desses poetas apresentam uma dureza muito grande. Cortam como adaga. Declamados, ao longo de décadas, por milhares de admiradores da poesia popular sul-rio-grandense, foram ouvidos, admirados e decorados por milhões de nossos conterrâneos. Contribuíram, Assim, para firmar e reafirma a idéia (discutível, é verdade) de os Rio Grande do Sul é do Estado mais politizado da Federação Brasileira.
A educação, como elemento importante para a ascensão social dos “proletários”, como afirmavam os positivistas, foi e continua um dos pilares básicos da doutrina social trabalhista. Alberto Pasqualini costumava repetir que “abrir escolas é fechar cadeias”. E esse é o tema de um dos poemas mais populares de duros de Luiz Menezes.
A carreta (carro de bois) exerceu um papel importante na economia gaúcha até o advento das estradas de ferro e dos caminhões. E é exatamente sobre um carreteiro, representante de uma atividade econômica em extinção, que via nos estudos do filho a única forma de romper a linha da pobreza, esse poema forjado no aço temperado com a indignação de homem e poeta da Campanha.   

O SONHO DO CARRETEIRO

Carreteou anos a fio.
Conhecia palmo a palmo
as estradas da querência;
Sabia onde dava passo
–    no tempo das enxurradas    –
aquele arroio sotreta
cemitério de carreta
disfarçado em água mansa…

Vira nascer muitos ranchos
nesse corredor sem fim.

Sabia que na picada
logo depois do lagoão,
o umbu do enforcado
dera lenda pras estórias
dos bolichos, das ramadas.

Sabia bem todo o causo
da tapera do repecho:
A maula traíra o guasca
e este sem dó nem piedade,
cortara junta por junta
o belo corpo moreno
daquela indiazinha louca
que se engraçara num piá ...

Mas além, no Passo-feio
vira morrer um tal Juca.
Eram três contra o rapaz.
E como morrerra lindo
aquele guasca sem medo ...
A estória ficou em segredo
pois diz que o tal de mandante
era mui relacionado,
e até contraparente
de um graudaço do povo.

Conhecia palmo a palmo
as estradas da querência,
sempre fora carreteiro.

Envelhecera na lida
sem conhecer outra vida
sem ter outra ocupação.
Tinha por seu ganha-pão
a velha carreta amiga
companheira de cantiga
daquele piazinho vivo
que era, alegria e motivo
de seu final de existência.

Pois ficaram bem solitos
mais amigos do que antes
des’que a finada se fora ...

Por isso sempre de noite
à meia luz do candeeiro
ficava horas inteiras
mostrando pra seu piazinho
as letras do ABC.
E o piá com muita memória
decorava uma por uma
as letras que galopeava,
ou por outra, engarupava
nas palavras do jornal.

Como era esperto o guri:
Foi duas, três paletadas
já sabia mais que o pai ...

E foi numa dessas noites
que o velho e bom carreteiro
teve um sonho de repente.
E quase num gesto louco
gritou pras quatro paredes
enfumaçadas do rancho:
Meu filho há de ser doutor!
Não há de ser carreteiro,
pois estas mãos calejadas
do peso-bruto, da enxada,
hão de sangrar no trabalho
pra que este piazinho feio
viva melhor do que eu ...

Pura e santa ingenuidade!
O arroio-sociedade
pra    o pobre nunca dá vau!!

No outro dia cedinho
enveredou para o povo ...

Voltava a velha carreta
A resmungar nas estradas
na viajada da esperança
carregadinha de sonhos.

E o pobre e bom carreteiro
ia falando de tudo
com seu piazinho faceiro
dentro da bombacha nova.
Não esquecia de nada
nos seus conselhos de pai:

Se lá no povo à tardinha
o piá sentisse saudade,
bombeasse pra o horizonte,
que alguém solito decerto
meio tristonho é verdade,
mateando assim com saudade
estaria a lhe esperar ...

Que importa se demorasse,
pois nunca ouvira dizer
que a tal saudade matasse.

Mas nesse dia por certo
Quando voltasse doutor
tudo havia de mudar.
Até o céu com certeza
morada das almas puras
ouviria com ternura
uma indiazinha chorar.

E as estradas da querência
que conhecia demais,
lhe viram passar feliz
com novo brilho no olhar.

…………………………….

Mas lá no povo –    cuê-puxa! –
Bateu em todas as portas
clamou por todos os santos
recorreu todos os amigos
– muitos dos quais ajudara –   
andou quase mendigando,
Pra ar escola pra o filho,
mas ninguém quis lhe escutar ...
E a esperança foi mermando
foi mermando ... e se apagou.

Botou a carreta na estrada
o Piazinho dentro dela
tocou de volta outra vez.

A noite então já chegara.
Naquela enrugada cara
de gigante das estradas
uma lágrima teimosa
veio molhar-lhe o nariz ...

Olhou o filho com carinho,
mas com muito mais carinho,
cm mais amor do que antes
e uma queixa derramou:
Quem nasce lutando busca
a morte por liberdade!
Mentira! A tal de igualdade
não existe por aqui ...
Que adianta se amar aos outros
se os outros não dão amor?

Pega a picana, piazinho,
e acorda esse boi manheiro,
pois filho de carreteiro
nunca pode ser doutor!!

O lirismo do poeta está presente em poemas como ÚLTIMO POUSO. Aí transparece o romantismo dos gauchescos brasileiros porque todos eles são visceralmente românticos, até mesmo em seus poemas de protesto. Nestes ecoam as apóstrofes de Castro Alves. Escritos para serem declamados nos rodeios, nos Centros de Tradições Gaúchas, e até nos bolichos e pulperías, até no tom altissonante lembram o poeta dos escravos. Não é à toa que a morte (tipicamente romântica) é uma constante no lirismo dos poetas crioulos.

ÚLTIMO POUSO

A morte a china maleva
traçoeira que até dá pena;
vive a pealar gente buena
sem se importar com o gaudério…
Não sei que estranho mistério
em    minha emoção se espelha
quando minh’alma se ajoelha
ante a cruz de um cemitério.

Fico por horas bombeando
fingidas frases fictícias
que ali ficam qual notícias
penduradas sobre a lousa
dizendo: “Ó tu, boa esposa,
dorme em paz aos pés de Deus”.
Que dirão então os meus
de mim que sou qualquer coisa?

Basta morrer pra ser bueno,
basta sofrer pra ser justo,
quem nasce ou morre de susto
nem frase fingida tem;
e dizer que no além
as almas são tão iguais!
Pra que estes luxos demais
depois que somos ninguém?

Mais feliz é a cruz solita
longe no ermo da estrada
sem fita,    sem flor, sem nada
marcando o fim de uma vida…
Fica dormindo aquecida
no sol que logo a desbota,
sem frase fria ou lorota
nessa sesteada comprida…

Gosto da cruz do proscrito
na solidão da campanha,
tendo a garrafa de canha
por promessa recebida;
me dêem esta cruz perdida
pra que o gaúcho passando,
viva sempre me acenando
numa eterna despedida.

Tomara que o Santo Onofre
seja no céu meu parceiro,
garanto que o dia inteiro
vamos meter canha e pinho…
E assim farei meu cantinho
na invernada do Senhor:
serei mais um pecador
tendo um santo por padrinho.

Sei que vão falar de mim
por mulherengo ou andejo,
mas fica aqui meu desejo
expresso nesta oração:
Não falem de um coração
que no céu não terá luz
e amarrem bem minha cruz
com as cordas do meu violão.

A infância e o retorno à infância é outra constante no lirismo gauchesco. No caso de Luiz Menezes não volta para ver a “infância querida” de Casimiro de Abreu”, que tanto influenciou (e continua influenciando) poetas cultos e populares. O que lhe ficou foi a infância pobre num casebre (rancho, na melhor expressão gaúcha) de chão batido (chão puro). E não é à toa que infância funciona como substantivo de rancho, ao estarem ligados diretamente, sem a mediação da preposição de. A violência marcada pela pobreza do menino se materializa com a violência (digamos assim) contra a Língua.


CANÇÃO DE INVERNO

No chão batido
do meu rancho infância,
cantou a pobreza
sua canção de inverno…
Senti na carne
as vicissitudes
das amarguras
que são mais profundas,
quando se tem
as ilusões mais ricas…

No chão batido
do meu rancho infância,
cantou a pobreza
sua canção de inverno…

E quantas noites
me embalaram o sono
canções amargas
– minha mãe cantando –
nesse    prenúncio
do amanhã incerto,
do piá que apenas
teve por riqueza,
toda essa glória
do amor materno.

No chão batido
do meu rancho infância,
cantou a pobreza
sua canção de inverno…

Foi quando fiz
o meu primeiro verso:
verso sofrido
sem consciência
ou glória;
verso de angústia
que era o grito amargo
de todos os ranchos
da minha querência,
por cujas frinchas
galopava o vento
golpeando os corpos
de famintas almas…

No chão batido
do meu rancho infância
cantou a pobreza
sua canção de inverno…

Foi quando fiz
o meu primeiro verso,
se ainda verde
nos primeiros anos,
já me caldeara
no rigor da vida
para saber
que o grito
da inclemência
é o canto eterno
quando o homem passa…

No chão batido
do meu rancho infância,
cantou a pobreza
sua canção de inverno…

E nos brasedos
da aurora pampeana
me acostumei
a matear em silêncio
vendo que o homem
quando parte deixa
raízes fundas
na sua querência…

……………………………

Por isso volto
pras minhas origens
cantando apenas
a canção de inverno!

A cacimba, a lagoa, o açude, o rio – numa palavra: a água – estão sempre presentes na obra dos poetas gauchescos. E é outro elemento romântico.

CACIMBA

Junto à cacimba ali à beira do mato
água de sombra do arvoredo denso,
sinto tua falta, sinto teu contato
quando tristonho em ti querida penso.

Ao coração procuro e não convenço
dizer-lhe apenas que morreu... Um fato.
E no silêncio do arvoredo denso
chora a cacimba ali à beira do mato.

O velho rancho    –    uma flor silvestre    –
sem o calor que um dia tu lhe deste
e onde a saudade veio pra ficar,

é no momento em que a alegria finda
uma tapera que te espera ainda
sabendo amor, que nunca vais voltar.

Como escrevi acima, a água é um dos grandes motivos do lirismo romântico. O Quaraí, exerce um fascínio sobre o poeta, porque é o rio da infância. E todos nós, que tivemos um rio da infância jamais nos esqueceremos dele. Cantá-lo é uma espécie de sentir-se protegido no líquido amniótico da terra de onde viemos e para onde voltaremos.

RIO QUARAÍ

Sonhos pueris, fantasias
dos meus tempos de guri;
fui moderno bandeirante,
um campeador de brilhante
nas águas do Quaraí.

Fui Marco Polo andarilho
herói como nunca vi,
que singrou todos os mares
e descobriu mil lugares
nas águas do Quaraí.

Caravelas de Colombo
também aportaram ali;
pra América fiz cantigas;
fui Bolivar, fui Artigas
nas águas do Quaraí.

Fui Portinari pintando
o canto do bem-te-vi,
fui até Pablo Neruda
quando o por-do-sol transnuda
nas águas do Quaraí.

……………………..

Onde andarão estes sonhos,
os mais lindos que vivi?
Se comigo não ficaram
com certeza se afogaram
nas águas do Quaraí.

O lirismo e o social unidos contribuíram para a popularidade de outro poema do poeta quaraiense. FAZ TANTO TEMPO é declamado por moças e meninas em concursos de declamação. É difícil um desses ventos onde não se encontre menina ou moça, em tom choromingueiro, recitando esses versos    de Luiz Menezes.

FAZ TANTO TEMPO

Era dessas lavadeiras
que deixam as roupas bem alvas
perfumadas de limpeza...

Tinha as mãos muito judiadas
muito brancas, enrugadas
da sanga, nas madrugadas
do inverno da campanha...

Mãos mais velhas que a velhice
que só sentiam carícias
quando se uniam na prece.

A pá batendo na roupa,
é como se ela batesse
nos trapos dos desenganos
que não pudera lavar...

Ajoelhada sobre a pedra,
ia cantando cantigas
que aprendera quando moça
bem lá no fundo do tempo...
E    a correnteza do arroio
alheia, se renovando
ia passando... passando,
como tempo sem voltar...

Quando alguém lhe perguntava
qual era bem sua idade,
o seu olhar de repente
tinha um clarão inocente
respondendo ingenuamente
que não soubera contar...

Era dessas lavadeiras
que deixam as roupas bem alvas
perfumadas de limpeza...

……………………………..

Faz tanto tempo! No entanto
nem sei por que, de repente
me volta a imagem inocente
da velhinha Margarida...
Que só sabia lavar,
cantar, rezara – sem chorar    –   
e a própria mágoa afogar
no arroio grande da vida.

E hoje quando olho o céu
e vejo nuvens branquinhas,
fico pensando... pensando
numa lembrança perdida:
Por certo foram lavadas,
enxugadas e passadas
por duas mãos enrugadas
da velhinha Margarida.


Tanto a criança quanto o velho merecem uma atenção especial dos líricos gauchescos. Em sendo uma identificação com as duas extremidades cronologicamene mais frágeis da espécie humana prestam-se muito bem ao lirismo de conteúdo social. Quando além de criança ou velho é mulher acrescentam um conteúdo sentimental ainda mais expressivo ao poema, como vemos nesses poemas sobre Margarida e “Siá” Maria. Esta com um componente a mais: negra, quatro vezes frágil.

PRETA VELHA "SIÁ" MARIA

E mataram Clarimundo!
foi a notícia na venda.
Como notícia se emenda
a aldeia ficou sabendo;
um piazinho, entrou correndo
no rancho de "siá" Maria,
preta velha    –    que ironia!    –   
muito querida no Pago,
era a mãe desse índio vago
que no corredor morria...

Com voz presa na garganta,
falou o piá a muito custo,
tinha no olhar o susto
de ver o irmão caído...
Que lhe importava o bandido
no dizer de todo mundo?
Pra ele, era o Clarimundo,
seu irmão mais velho e pai,
que morria sem um ai!
lá na invernada do fundo.

Mas pra preta "siá" Maria
não precisou que dissesse,
porque toda mãe conhece
de cada filho o destino...
A mãe tem o Dom divino
de anteceder a notícia.
Clarimundo e a polícia
se encontrariam um dia,
por isso ela já sentia
toda angustia do menino.

Depois com o surrado manto
lhe cobrindo a carapinha
enveredou pra estradinha
que tantas vezes cruzara.
A dor lhe sulcava a cara,
em saudade diluída,
porque a lágrima sentida
é saudade gotejando
que ela sentia chorando
por alguém que muito amara.

Foi atravessando a aldeia
com mil lembranças na mente
vendo a maldade da gente
nas expressões mais ousadas...
Passou por muitas ramadas
sem receber um consolo,
quando um borracho, mui tolo,
dominado pela canha,
disse maldade tamanha:
Bem feito pr'esse crioulo!

Esqueceram "siá" Maria,
preta velha benzedeira
que sempre fora a primeira
chegar num rancho em apuro...
Que só tinha o rosto escuro,
porém a alma branquinha,
branca como a carapinha
que lhe contrastava o rosto
franzido pelos desgostos
da própria vida que tinha.

Não lhe perdoaram jamais
seu pobre filho maleva
que penetrara na treva
invernada do gaudério...
Ele que já fora um sério,
e que até rezar sabia,
e que morrendo dormia
pras ingratidões do mundo.
Por ser mãe de Clarimundo,
não perdoaram "siá" Maria.

E lá se foi preta velha
guiada pelo Senhor
o Único que na dor
nunca nos deixa solito...
Por isso, Patrão Bendito,
eu rezo de quando em quando,
se estiver no céu chorando
minha mãe por meus pecados
sei que estarás ao seu lado
sua lágrima    apagando.

M. Cavalcanti Proença em conhecidíssimo ensaio intitulado “O Cantador Castro Alves (in Estudos Literários – 3. ed. – Rio de Janeiro: J. Olympio, 1982), destaca a simpatia popular pelo “homem-solidão – fugitivo da justiça do céu e da terra, desguaritado e sem pouso, ou sedentário, homem bom, eremita penitente – situa-se o que se poderia chamar de complexo da terra estranha”, como se lê à página 233. Esse é um assunto bastante presente na poesia gauchesca. E o encontramos, também, em Luiz Menezes, ligando o proscrito judicial e o proscrito social, que acabam morrendo juntos, na mesma (e até inconsciente) resistência comum às mãos armadas pelas classes dominantes.
Esse amor ou atração pelo proscrito o poeta o retratou em poemas    como Fogueteiro e Paisano.

FOGUETEIRO

Mais oigatê vida braba!
que profissão degraçada...

Era um forte,    no entanto,
vivia as margens da sorte.
Pois nos bolichos de aldeia
ninguém bebia em seu copo,
ninguém lhe dava um saludo,
ninguém lhe ofertava um trago
e ninguém lhe dirigia
uma palavra sequer...
Ninguém andava a seu lado,
ninguém entrava em seu rancho
e nunca em sua vida amarga
alguém lhe chamou de amigo...

Mas oigatê vida braba!
que profissão desgraçada...

Trabalho, choro e silêncio
nesta vida amaldiçoada,
era apenas o que ouvia...
O chamavam Fogueteiro
Ou de "coveiro" também...

Num trabalho repetido,
abrindo e fechando covas
o Fogueteiro era um morto
igual aos que sepultava...
Por isso em sua vida amarga
nunca tivera um amigo.

Numa noite fria, escura
como a sua solidão,
pressentiu algo de estranho
rondando seu tosco rancho.
E de repente    um barulho
de cascos em atropelo
e uma voz, quase um gemido,
num murmurante: "ó de casa!"

Pulou do catre num upa,
colou o ouvido na porta
e na escuridão do rancho
com a adaga desembainhada,
esperou a voz outra vez.

Houve um espaço de tempo
até que a voz novamente,
agora a voz bem mais clara,
alguém dizer:    "ó de casa!"
E completar: "Meu amigo,
eu venho muito ferido
e uma patrulha me segue...

"Amigo?... –    Pensou o coveiro –.
se eu nunca tive um amigo…"

Mesmo assim destravou a porta
e pulou para o terreiro
dizendo: “Apeie no mais parceiro
que eu escondo o    seu cavalo...”
E o estranho cambaleando,
com a camisa ensangüentada,
repetia ao Fogueteiro:
“Gracias, amigo, e desculpe,
talvez lhe traga desgraça...
mas recebi um balaço
e está sangrando demais.

…………………………..

Quem diria, num segundo,
Fogueteiro e forasteiro,
amigos desconhecidos,
abraçados no socorro...

Entraram. E    sobre uns pelegos
deitou o ferido de lado
para que o sangue estancasse
e    com o poncho lhe tapou.

Levou o cavalo pra o mato
e    voltou pedindo à Bugra
que esquentasse a cambona,
botasse bastante “arnica”
e deixasse ferver no más…
A bugra era sua mulher,
que nem ao menos falava,
só sabia obedecer...

Quase a porta veio abaixo
com as batidas de um milico.

“ Tchê Fogueteiro, te acorda!”
“To    acordado, patrão.”
“ Por acaso tu    não viste
alguém passar em disparada
no rumo do Arroio Vau?”
“ Por certo que não, patrão,
e se ouvi nem me dei conta…
São tantos os contrabandistas
que vivem atalhando aqui...”

“Bueno, mas abre teu olho
que o índio é mui perigoso…”
E gritando para os outros:
“Bamo se embora, pessoal,
que o bandido se escapou...

…………………………..

A noite ainda ia alta
quando o proscrito se foi,
não sem antes abraçar
seu estranho benfeitor...
“Até a volta, meu amigo!
talvez um dia apareça
pra contá o que não contei…
Gracias! Mil gracias,    amigo!
foi repetindo no escuro
da noite na qual entrou.
Se    foi bem como chegou:
sem dizer pra onde ia...

Quem sabe, talvez sabe queria
morrer bem longe dali...

………………….

O Fogueteiro ficou
“pitando” olhando à distância
com algo assim bem estranho
lhe cutucando a consciência…
“Será que não fora um maula
abandonar um ferido
solito num corredor?
Qu’ importa se era um bandido.
Ele bebera no seu copo
deitara nos seus pelegos
debaixo daquele teto
coberto de santa-fé
E lhe chamara de amigo
no derradeiro até-a-volta…”

………………………

Já surgiam no horizonte
primeiras barras do dia.
Se encaminhou ao potreiro
em busca do malacara.
Encilhou, não tão depressa,
porém com muito cuidado…
Botou a adaga entre os pelegos
e sem dizer pra onde ia
falou pra Bugra: – "Já volto"
e se foi seguindo o rastro
que o forasteiro deixou...

Houve um clarão na distância
do tiroteio cruzado.
Depois, um baita silêncio
desses que anunciam a morte...

Foram encontrados dois corpos
no corredor da Tapera:
De um, sabiam quem era;
o outro… Um desconhecido.

Sim, era o Fogueteiro
com seu estranho    parceiro,
o único companheiro
que lhe chamara de amigo!


PAISANO

Um dia chegou de longe,
nunca se soube de donde...
Chapéu quebrado na testa
e um lenço preto ao pescoço
negro como pensamento
de uma china despeitada.

E afinal, ficou de peão
Da estância de "Seu" Quirino.

Primeiro que levantava
ao canto do quero-quero
pra impeçá a lida do dia.
E quando lhe davam um alce,
passava grozeando os cascos
de um rozilito cinzento,
pingo que era um pensamento
segundo seu comentário.

Ninguém sabia seu nome,
talvez, nem mesmo o patrão.

Mas quando de noitezita
a indiada puxava um banco,
em derredor do fogão,
lá sob um canto, solito,
um pinho entrava de manso
cantando coisas bonitas,
que faz a gente pensar...

E finalmente a peonada
se acostumou com o estranho:
pra todo mundo da estância
era o Paisano no    mas…

Talvez por seu mutismo
despertava nas mulheres
caprichos de coração.

Porém muito maneiroso
fazia sempre segredo,
quando por necessidade
precisava do carinho
de alguma china qualquer...

Depois voltava solito,
ao trote do seu rozilho,
levando para os pelegos
mais uma história de amor.

E finalmente aos pouquitos,
por ser pronto servidor,
foi conquistando a amizade
desde a peonada ao patrão.

E foi num final de tarde
que alguém entrou no galpão
e disse pros que mateavam
que uma patrulha do povo
buscava um “sorro” qualquer...
O que se ouviu de repente,
foi uma voz que de um canto
falou por primeira vez,
Dizendo apenas: “To    aqui!!”

Foi como se lá do céu
um trovão se desgrudasse
preludiando temporal.
Logo o galpão foi sitiado
pela patrulha do povo.

E    até me    parece mentira
que um indiozito tão quieto
pudesse ser tão ligeiro
na hora do ferro branco.

…………………………….

Quando cessou o reboliço
E os gritos do entreveiro
jaziam lá no terreiro
três índios ensangüentados...

E a longe, na polvadeira,
um rozilito cinzento
de cascos bem aparados,
debandava pra outros “norte”,
talvez pra banda Oriental...

Levava apenas no lombo
um guapo e quieto Paisano
que um dia chegou de longe,
nunca se soube de donde.

O contrabando é outro tema constante na literatura gauchesca. Resto de uma sociedade onde não existiam a fronteiras criadas pelo conquistador branco. De certo modo, a gauchesca procura o “eterno retorno”, o paraíso perdido. E o paraíso perdido, como o Éden bíblico, é um lugar onde todos os homens são iguais, um lugar sem fronteiras. O contrabandista, grande ou pequeno, é um injustiçado social, vítima do pecado original, causado pela ingestão do fruto proibido, o Estado, e ainda mais um estado artificial, transplantado da Europa.
Peona, talvez por isso, influenciou muitos poetas, que reescreveram a mesma história.

PEONA

Cidinha fez sete anos
sem festa, presente, nada...

A data só foi lembrada
na folhinha da parede,
que mostrava uma boneca
que ela sonhava comprar.

O pai andava tropeando
ou talvez contrabandeando;
Contrabando na fronteira
embora "brabo" é profissão.

Cidinha fez sete anos
sem festa, presente, nada...

De manhã muito cedinho,
quando o sol bandeou a janela,
ganhou apenas carinho
da bênção que a mãe lhe deu.

O rancho de pau-a-pique
bem limpinho, chão batido,
vivia o louco gemido
dos que a dor sabem esconder.

Somente a alma bonita
da menina sem boneca
brincava de aniversário
nesta festa sem ninguém...

Cidinha fez sete anos
sem festa, presente, nada...

O dia passou correndo,
a noite chegou depressa,
e com a noite a promessa
de um lindo e novo amanhã.

Talvez o pai se lembrasse
de lhe trazer um presente?
Mas o pai que andava ausente
chegou e..."buenas" no más.

Dos padrinhos? Pobre gente!
Para o batizado em casa
quase sempre são parentes
ou vizinhos mais chegados.

Na igreja custa dinheiro;
Em casa uma vela basta
pra reza meio cantada
que nem decorada está.

Como esperar a menina
que lhe trouxesse presente,
gente sem fé na esperança,
sem hoje, sem amanhã?

Cidinha fez sete anos
sem festa, presente, nada...

Foi bem cedo para o catre,
se cobriu com o poncho velho
– cobertor des'que nascera –-
e rezou para dormir.

Sonhou com o Patrão Celeste
junto do catre, bem rente,
que lhe trazia um presente
todo envolto de luar.

Sim era aquela boneca
com um sorriso sapeca,
que saíra da folhinha
e viera em sonho lhe abraçar.

…………………………….

Cidinha fez sete anos
e aí parou de contar...
sem escola, sem boneca
sabe Deus onde andará?

Talvez de peona em estância
dormindo em muitos pelegos...
Amargo preço do emprego
dos que não têm profissão.

Os ventos que sopram na Campanha, o minuano, o pampeiro, exercem um fascínio sobre os escritores que escreveram sobre o homem e o meio rio-grandense, desde o cearense José de Alencar, com o romance O Gaúcho (1870). O minuano, vento gelado que vem da República do Uruguai, cortando campos e serras povoadas pelos extintos índios minuanos, é uma constante temática entre os gauchescos e deu título ao primeiro livro de poemas de Lauro Rodrigues, que tanto influi na vida e na obra de Luiz Menezes.

MINUANO

Que se passa contigo, Minuano?

Que atropelas o rancho indefeso
espantando o calor que ali dorme
escondido no meio da cinza
de um fogo que há muito apagou?

Que se passa contigo, Minuano?

Que pareces querer estinguir
uma raça faminta que sobra,
abrigada na desesperança
dos destroços da era presente?

Que se passa contigo, Minuano?

Eu bem sei que repontas angústias
deste Pampa que tu hoje choras
sob as folhas do umbu solitário
que no ermo do campo quedou...

Que se passa contigo, Minuano?

Tu não vês que nos ranchos se encolhem
mil piazitos de corpos franzinos
a bombear a panela vazia
na esperança de um dia melhor?

Que se passa contigo, Minuano?

O teu grito por sobre a cumeeirra
faz lembrar-me do canto esperança
que apagou nessa estrada sem rumo
cemitério das desilusões!!


Publicado no site: O Melhor da Web em 21/05/2010
Código do Texto: 56174
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