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NIVALDO DONIZETI MOSSATO
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Texto mais recente: PÁGINAS EM BRANCO

Textos & Poesias || Crônicas

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PÁGINAS EM BRANCO
14/04/2017
Autor(a): NIVALDO DONIZETI MOSSATO

PÁGINAS EM BRANCO

PÁGINAS EM BRANCO
                                       Nivaldo Mossato


O outono cruzava a varanda em silêncio, enquanto o ‘Menino do Mato’, Manoel de Barros, sussurrava-me que: ‘’(...) gostava das palavras quando elas perturbavam o sentido normal das ideias. (...) sabia que só os absurdos enriquecem a poesia.” Os pensamentos entonavam o ritmo cadenciado dos últimos raios de sol da manhã, vistos por entre as sobrancelhas quase cerradas dos meus olhos. O corpo deixava-se seduzir, moldando-se às curvas da cadeira de fios. Enquanto os dedos separavam os capítulos do livro, o divino silêncio foi estilhaçado: ‘’Vô! Ô vô! O que você tá lendo?” Antes mesmo de abrir os olhos, a resposta veio da alma: ‘’páginas em branco! Páginas-em-branco!” Abri os olhos e deparei-me com o rostinho risonho e zombeteiro do meu neto Rafael, de pouco mais de 7 anos que, hiperativo e curioso, falou-me entre dedos e bocas: “eh, vô....lendo páginas em branco? Só você mesmo! Se tá em branco, como você lê?!” Seus dedos percorreram meus braços e tomaram de assalto o livro das minhas mãos, folheando-o quase em desespero. Seus dedinhos mergulharam por entre as páginas ‘’embaralhando’’ os escritos. De salto, seus olhinhos estatelaram-se ao se depararem com algumas páginas em branco, no final do livro, enquanto seus lábios deixavam ver as ‘’janelinhas’’ da sua arcada dental ao exclamar: ‘’estão em branco mesmo! Estão em branco!” A descoberta parecia-lhe insipiente. Era como não saber o já sabido que, para se ler, tem que haver algo escrito. A dúvida não lhe durou segundos. Intrépido, inquieto e voraz, como muitos da sua idade, saltou sobre meu corpo dizendo: ‘’vô, me ensina a ler páginas em branco....me ensina....me ensina! Como você lê sem letras?” A resposta demorou-me. Como se, pego de surpresa, páginas em branco surgiam em minha mente. Era um livro sem palavras que se fazia editar. Calmamente ajeitei meu corpo na cadeira e tomei-o em meus braços. Olhei-o firmemente nos olhos e deixei fluir, quase sem pensar, palavras que jamais pensei que ele entenderia: ‘’quer mesmo aprender a ler páginas em branco?” Um sorriso maroto respondeu-me sem palavras, enquanto sua cabecinha acenava afirmativamente. Puxei outra cadeira ao meu lado e pedi-lhe que se sentasse. Abri o livro numa página qualquer e, apontando para uma estrofe ordenei-lhe: ‘’leia!”. O maroto sorriso enrijeceu, dando lugar a uma leitura ainda imatura e descadenciada. Sem muito jeito, a poesia jorrou como se fosse decapitada. As palavras de Manoel de Barros já não eram mais dele, já não lhe pertenciam os sentidos e significados. O som balbuciado se perdia entre os tropeços da leitura imatura, dando origem a uma batalha que precisava ser vencida: ler as palavras, para aprender a ler as páginas em branco. E ele prosseguia, perseguindo-as: “(...) Ele sabia que as coisas inúteis e os homens inúteis se guardam no abandono. Os homens no seu próprio abandono. E as coisas inúteis ficam para a poesia.” Passando o dedinho sobre a última palavra respirou fundo e deixou fluir o ar pelas narinas: ‘’terminou, vô.” A suavidade do tom de voz revelava a inércia de sentido das palavras proferidas. Seus olhos acompanhavam os dedos que deslizavam por sobre a página, agora desprovida de letras e signos. Pareciam procurar por algo de misterioso que o pudesse surpreender. Sorri-lhe o mesmo sorriso maroto. Com uma das mãos segurei o livro, ainda em suas mãos. Com a outra, segurei-lhe o dedo que corria livre sobre a página e continuei o movimento, agora ziguezagueando sem rumo, desconexamente. Com voz suave dei-lhe o comando: ‘’feche os olhos. Sinta na pontinha do dedo a folha do livro. Deixe sua mão percorrer toda a página, de baixo para cima, de um lado para outro. Subindo e descendo, sem pressa. Não olhe! Só sinta a ponta dos seus dedos.” Enquanto induzia-o ao movimento, fui soltando sua mão, deixando que ele continuasse a ‘’ler’’. Aos poucos, o livro foi ficando pesado. Tomei-o e coloquei-o sobre a mesa de apoio. Ajeitei-me novamente na cadeira ao lado. Respirei profundamente e continuei: “não abra os olhos. Continue sentindo seus dedos percorrerem a folha do livro. Sinta também o ventinho que assopra seus cabelos e sua pele. Relaxa seu corpo e vai se soltando na cadeira. Escuta o silêncio. Escuta os passarinhos... vai escutando o vento... vai escutando... escutando.” Seu corpo foi relaxando e encolhendo-se sobre a cadeira, tomando a posição fetal. Enrolou-se, descansando a cabeça sobre os joelhos dobrados. Fechei os olhos e abandonei-me no silêncio do outono que corria pela varanda. Ficamos assim por uma breve eternidade.


Publicado no site: O Melhor da Web em 14/04/2017
Código do Texto: 134716

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