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JIM CAVEZELL
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Texto mais recente: O Corvo

Textos & Poesias || Contos

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O Corvo
02/03/2018
Autor(a): JIM CAVEZELL

O Corvo




   Meu nome é Jim Cavezell. Estamos no ano de 1989. Os fatos narrados a seguir implicam no desfecho que levara minha vida depois de um inesperado presente que recebi.
                                                     
                           * * *

Era uma tarde calma de outono. Eu chegava em casa depois de um dia de cão no trabalho; só pensava agora num jantar quente e me jogar na cama.
   Assim que atravessei o portão deparei com um embrulho sobre a escada. Surpreso, olhei para o objeto e o examinei. Era uma gaiola, envolta em pano negro e desbotado. Dentro dela um pássaro, tão negro quanto a noite, estava imóvel, feito pedra. Parecia um tipo de corvo, o que era estranho, pois quem, em sua sanidade perfeita teria um corvo como animal de estimação? E o mais curioso, quem teria deixado tal embrulho na minha casa, e com qual finalidade?
   Com uma olhadela à volta, apanhei a gaiola e entrei em casa. Vasculhei-a a procura de qualquer cartão ou bilhete, mas nada encontrei. Por fim, sem saber o que fazer no momento e cansado como estava, esqueci o pássaro e o ocorrido por um tempo e pus-me a tratar do jantar.
   No dia seguinte, quase já havia me esquecido do novo hóspede, mas antes de sair fui dar-lhe uma olhada, somente quando notei a falta de comida na gaiola. Mas o que será que um corvo come? Me veio à cabeça apenas carne, por isso foi o que providenciei, junto a uma vasilha de água, depois aprontei-me para sair. Antes, porém, disso acontecer, a criatura lançou-me um olhar sinistro por debaixo das penas negras, causando-me um frio espectral na espinha. Seus olhos por um instante arderam com um brilho tão sombrio que hipnotizaram-me por alguns segundos, nos quais eu enxergava apenas o reflexo da minha figura assombrada.
   Ainda com dificuldade em me desvencilhar daqueles espelhos agourentos, que operaram em mim algo que eu jamais sentira, como uma mistura de medo e interesse súbitos, interesse por algo que eu sabia estar além da minha realidade, como um sonho remoto e esquecido, dei as costas à ave e atravessei a porta.
   Quando cheguei em casa, os suprimentos que eu pora na gaiola ainda estavam intactos. Isso me desconfortou um pouco, por isso resolvi soltar o pássaro. Pus a gaiola na janela e o incentivei a deixá-la, e como, depois de muitas tentativas, continuasse imóvel, abandonei-o – quando lhe desse na teia de ir embora, que assim o fizesse.
   Passou-se, porém longos dias sem que isso acontecesse, e nesses dias minha vida se transformou num inferno.
   Tudo começou um dia após minha tentativa de soltá-lo.
   Acordei uma noite com barulhos estranhos que me chegavam como sussurros longínquos. Milhares de vozes pareciam invadir minha casa, todas falando – ou como disse, sussurrando ao mesmo tempo, ecoando na minha mente como um coro inquietante, mas que felizmente foram silenciando momentos depois de eu abrir os olhos, até que cessaram por completo, fazendo-me, na manhã seguinte pensar se tudo não passara de um sonho. Mas se fora, então ele se repetira várias vezes. A diferença era que a cada noite os chiados ficavam mais fortes e próximos, dando a parecer que iam me engolir, causando-me calafrios semelhantes aquele que eu sentira naquela manhã ao encarar o corvo – o que não me deixava nada confortável.
   Acordei novamente numa noite, especialmente fria. Mas dessa vez o que me incomodara fora um crocitar incessante – enfim quebrara seu silêncio, pensei comigo mesmo. Levantei sonolento e fui até o tagarela. Qual foi a minha surpresa quando encontrei a gaiola completamente vazia.
   Seguindo os gritos, deparei com a ave imóvel sobre um crucifixo à escrivaninha. Assim que me viu silenciou por completo. Seu olhar era o mesmo que me dirigira naquela manhã: a morte estava nele. Sem ousar pôr-lhe as mãos, abri mais duas janelas e retornei à cama. O restante da noite fora calmo e normal, sem qualquer ruído ou grito, diferentemente do que estava por vir.
   De manhã, o corvo já estava novamente na gaiola, que por estranho que pareça estava trancada, diferente de como eu a deixara. Fiquei um pouco perturbado, mas naquela hora não pude pensar em nada o que fazer: estava atrasado para o trabalho.
   Assim que retornei para casa naquele dia, a primeira coisa que fiz foi procurar um destino para a ave. No final das contas resolvi abandoná-la em qualquer ponto distante de mim. Deixei isso, porém para a manhã seguinte. Pensava em abandoná-la em qualquer lugar a caminho do trabalho.
   Minha noite, mais uma vez fora perturbada pelos seus gritos. Os ponteiros do relógio marcavam três da manhã quando fui despertado. A criatura miserável parecia que ia explodir de tanto gritar. Irritado, levantei à grande custo e me dirigi à sala. Lá estava um vulto negro sobrevoando o cômodo à grande velocidade. Ia de um lado a outro, quebrando tudo que encontrava pela frente. Enquanto eu recolhia vasos quebrados e tentava repor tudo no lugar, as janelas repentinamente se abriram, e por elas um vento furioso devastou a sala, revirando tudo que já estava revirado e dando cabo do pouco que restava lugar.
   Berros inaudíveis saíam da minha boca com intenção de intimidar ou espantar a criatura, enquanto que em meio a confusão que se tornara minha sala, eu tentava, em vão, fechar as janelas.
   Uma loucura sem igual invadira minha casa e mente, e em seu auge vi o corvo por um instante crescer, pousar sobre o crucifixo, jogá-lo ao chão e abrir as enormes asas negras. E no momento em que soltara três gritos que gelara meu coração, uma sombra hedionda surgiu atrás dele, assomando contra a única luz que ainda brilhava naquele recinto de devastação. Por um momento avolumou-se, dando a parecer que ia engolir a sala inteira, depois se dissipou com o vento, que no mesmo instante aquietou-se.
   O corvo, para aumentar minha loucura, escapou da minha visão, e quando lhe pus os olhos novamente, estava na gaiola, o único objeto que ainda permanecia intacto.
   Ainda com assombro estampado na cara, olhava à distância para a gaiola. Desesperado, abri caminho por entre a bagunça, apanhei um lençol entre os móveis caídos e a cobri. Agarrei as chaves do carro e sai porta afora com o objeto na mão.
   Se alguma alma viva passasse pela rua naquele momento - o que era praticamente impossível - veria um homem tão pálido quanto uma folha de papel em branco.
   Entrei no carro e mergulhei no sereno da madrugada. Estava frio. Um silêncio forrava as ruas à minha volta. A ave não dera um pio sequer no caminho, fazendo-me várias vezes verificar se ainda estava lá. Mas toda vez que eu entreolhava por debaixo do lençol, lá estava a coisa, parada feito pedra, com aquele olhar de morte.
   Passei por algumas ruas e esquinas, e quando a aurora já clareava os céus sobre a minha cabeça, cheguei a uma planície extensa além das fronteiras da cidade. Ali, num riacho veloz e razoavelmente largo, arremessei gaiola e pássaro.
   Voltei para casa e contemplei, à luz do dia, a bagunça que ela agora se tornara. Definitivamente não seria um bom dia, mas mesmo assim eu precisava trabalhar. Deixei tudo como estava e apontei-me para sair.
   O dia fora normal, mas eu estava um lixo. A cabeça girava, os sentidos fraquejavam. Parecia que eu havia saído de um pesadelo que insistia em invadir meus pensamentos.
   Enfim cheguei em casa. Parecia que um ciclone havia passado por ali. Mas agora eu só queria apagar, a bagunça podia esperar. Assim que deitei, o telefone tocou. Era a Debby, uma amiga íntima, mais íntima do que qualquer pessoa que eu conhecia. “Sua voz está péssima”, disse ela. “O que houve?” “Dia e noite difíceis”, disse eu. “Eu estava pensando em dar uma passada aí hoje...”disse ela. “Eu adoro a sua companhia, Debby, mas hoje eu seria uma péssima para qualquer pessoa. Mas se você puder passar aqui amanhã seria legal.” “Está bem”, disse ela. “Até amanhã então. Boa-noite!”
   Mal desliguei o telefone e caí em sono profundo. Este, entretanto, fora atrapalhado por gritos que me despertaram e por um instante me congelaram. De início parecia, e eu queria assim acreditar, que fosse um sonho. Mas logo vi que estava enganado. Levantei temeroso e lentamente fui até à sala, onde vi o que meus olhos tanto desejavam não ver: o corvo estava de volta; e como na noite passada vagava como um condenado pela sala.
   Tomando coragem, apanhei um pedaço de madeira e pus-me a golpear o ar atrás da criatura. No meu estado de fúria, acertei tudo, menos o alvo, e no final das contas restaram-me apenas janelas quebradas e os cacos da última lâmpada que ainda iluminava a sala. E para completar, uma rajada de vento tão forte quanto a última chegou pelas janelas.
   No mesmo instante senti toda a casa mergulhar em trevas, à medida que todas as lâmpadas estalavam e se quebravam no ar. Estava na mais completa escuridão, com um vento gélido a me invadir os ossos e uma ave descontrolada sobre a minha cabeça.
   Meus gritos eram sussurros levados pelo vento. Contudo, com o que vi logo em seguida, fiquei mudo imediatamente. O corvo, num voo rasante sobre uma das paredes, começou a fazer movimentos circulares, e no centro deles algo como manchas de sangue se avermelharam e intensificaram. Vi se formar entre elas três números disformes, todos assomando como um 6 pingando filetes de sangue negro.
   Aquilo foi a gota d’água para mim. Eu não era uma pessoa muito religiosa, mas sabia o que aqueles números significavam. Ao olhar aquela visão sobrenatural de terror, sai tateando no escuro e cheguei à porta. Assim que ia atravessá-la, tropecei nalguma coisa e caí com a cabeça contra o chão. A única coisa que ouvi antes de apagar foi um crocitar tão intenso que fez meus ouvidos doerem. Depois só escuridão.
   Acordei na manhã seguinte com os gritos da Deby ecoando em meus ouvidos. Sentia a cabeça doer, sangue seco grudava meus cabelos. E depois de incessantes “Você está bem?” e “O que houve?”, a Debby ajudou-me a levantar. Recostei-me numa poltrona revirada, e enquanto ela fora atrás de alguma coisa para tratar do ferimento, eu imediatamente percorri a parede com os olhos ré assombrados, esperando ver o sangue e tudo mais. Mas ela estava vazia, totalmente branca e vazia. O maldito corvo também desaparecera – ou assim parecia no momento.
   Depois de ter quase toda a cabeça enfaixada e convencer a Debby de que eu estava bem o suficiente para ficar de pé, fui obrigado a responder um interrogatório cansativo.
   Não obstante, não mencionei os motivos – ou o motivo – reais para eu e a casa estarmos naquela situação. Eu sabia muito bem o que tinha visto, e que não fora um sonho. Mas ela nunca entenderia, e poderia pensar que eu estivesse maluco. E assim pensou, mesmo depois de eu lhe contar sobre o vento – o único fato real da história que eu revelara – e colocar o resto da culpa na energia, mencionando curti-circuitos e apagões absurdos.
   Ficara óbvio que eu escondia mais do que falara, mas depois de ver que nada mais sairia da minha boca, a Debby aquietou-se.
   Passamos o dia arrumando a casa e trocando lâmpadas. E no final da tarde tudo que estava revirado, mas de algum modo intacto, fora posto no lugar. Apenas objetos de vidro – dos quais uma mesa e alguns copos e vasos e janelas faziam parte – foram por completo destruídos. Estávamos exaustos. Em companhia da Debby eu libertei minha mente do corvo e da noite tenebrosa. Ela era uma pessoa maravilhosa, me fazia sentir como se as pessoas ainda merecessem ser amadas e possuíssem o dom de amar; me fazia recuperar a fé na humanidade – se é que já tivera alguma. Ao seu lado eu sentia como se cada pensamento mesquinho e egoísta não existisse, ou que aqueles que os possuíam não fossem tão reféns deles assim. Enfim, eu me sentia um só. Ali estava alguém que eu admirava e sentia desejo de proteger, a pessoa que gostava de mim como eu era e que me entendia – ou muito se esforçava para isso. A pessoa que poderia me completar.
   A noite caíra rapidamente, e com o final do dia a Debby foi embora.
   Lá estava eu sozinho de novo. O corvo e todo o resto voltaram a torturar-me a mente. Estava com medo de encarar minha própria casa. Mal ousava respirar naturalmente. Uma tensão constante tomara meu corpo. Um simples ruído do vento lá fora gelava meu coração. Estava refém do meu próprio medo. Fazia um esforço torturante para agir e parecer normal, tentando, em vão, convencer a mim mesmo disso, ou mais além, tentando transmitir essa mentira para algo que eu não via, mas que de alguma forma sentia que estava a me observar.
   Queria desacreditar no que me dizia a intuição, mas eu tinha certeza de que mais uma noite conturbada estava por vir. Apenas de uma coisa eu tinha plena certeza: tudo começara desde que aquela ave maligna fora deixado na minha casa; um portador de medo e desespero, talvez fosse o que era. Mas quem o mandara, e com qual propósito? E por quê eu? Gelava só de pensar nas respostas.
   Então foi aí que um pensamento, além do medo, me ocorreu: se o corvo era o que atraía a desgraça, então esta, sem ele não existiria – ou isso era o mais lógico a se pensar sob tanta pressão. Com isso cheguei a uma conclusão: teria de matar a criatura, porque se não, a julgar pelo decorrer das coisas, era isso o que ela acabaria por fazer comigo.
   Apanhei um velho Calibre 22 que eu tinha em casa – não que eu algum dia tivesse imaginado que o usaria numa situação daquelas – e esperei pelos gritos costumeiros da madrugada, que como previra, começaram às três da manhã. Mas não vieram sozinhos. Gritos de lamentos e sofrimento, misturados com vozes de ira, irromperam debaixo duma agonia insuportável. Ora distantes, quase inaudíveis, ora tão próximos que chegavam a ensurdecer. Sons de grilhões arrastados pelo chão também juntaram-se ao tumulto, como que saindo dalgum covil obscuro além da realidade. Tudo aquilo agora a me invadir os ouvidos, torturando-me como a um condenado que não merece compaixão.
   Uma fraqueza e receio indescritíveis se apoderarem de mim. O que eu veria ao deixar o quarto? Qual a finalidade disso sobre mim? Seria eu capaz de resistir ao que pensava em ousar enfrentar? Essas perguntas ribombavam todas ao mesmo tempo na minha cabeça, fazendo-me ficar imóvel de arma em punho.
   No final não consegui coragem para deixar o quarto – não pela porta. Saí tremendo pela janela, escalei a parede por alguns segundos de tensão, até vacilar e chegar ao chão com um tombo que me rendeu os cotovelos e um dos joelhos ralados. Saí louco em direção ao carro. Mas logo atentei para o que me desesperou: droga!, sem chaves. Estava fora de cogitação entrar em casa novamente. Teria que me virar a pé. Atravessei o portão e saí descontrolado rua afora, em plena madrugada.
   Não lembro o quanto eu andei exatamente, mas quando estava cambaleando e exausto, já com os primeiros raios do Sol, uma voz me devolveu a paz: bendita Debby!
   Eu entrara em choque, não dissera uma só palavra até chegarmos na casa da Debby. Ela morava no campo, um lugar bonito e muito verde, mas afastado de tudo. Em um momento diferente, eu ficaria feliz e confortável num lugar daqueles, mas só de ouvir o canto dos pássaros e o farfalhar das árvores, uma sensação constante de perigo me deixava inquieto. Era visível minha perturbação, o que já estava deixando a Debby com mais medo do que eu. Quanto à arma, continuava comigo, mas eu logo tratei de deixá-la fora do seu conhecimento, escondendo-a da melhor maneira possível.
   Ela resolvera ficar em casa naquele dia, fazendo-me companhia e me dedicando uma atenção incomum. Não podia mais me segurar, teria de contar a alguém sobre tudo ou explodiria, e ela seria a única pessoa que de alguma forma poderia me ajudar. Assim, depois de fazer-lhe um relato dos últimos acontecimentos, desde o primeiro contato com o corvo até a noite passada, ela me olhou confusa. “Espera aí”, disse por fim, “deixa eu ver se entendi direito. Você está dizendo que um corvo trouxe o diabo para sua casa?” Fiquei mudo. Era óbvio que ela não acreditara em mim – quem acreditaria?
   Talvez eu estivesse realmente ficando maluco. Não a incomodaria mais com aquilo, apesar de por dentro eu me esforçar para não parecer um drogado fora de controle. Mas com a aproximação da noite foi ficando difícil me controlar.
   O vento ali era mais intenso, e além das folhas dançando no ar tudo era silêncio, um silêncio pesado, ameaçador. Eu estava sozinho novamente. A Debby fora dormir, e eu sentia falta da sua presença. Tivemos, apesar do meu estado, um dia maravilhoso, no qual só de ouvi-la falar era o bastante pra mim. Ela me confortava. No jantar, quase não falávamos, nosso olhar era o suficiente. Sem dúvida, a melhor pessoa que eu já conhecera.
   Perto da meia-noite, eu senti algo que não podia explicar, e pouco depois disso um barulho familiar me veio aos ouvidos; desci até a sala e ali deparei com o corvo sobre a lareira. Estava quieto, mas me olhava diretamente, com um olhar que dizia "pensou que fosse se livrar de mim?"
   Criatura miserável! Estava na hora de pôr fim àquilo.
   Subi ao quarto novamente e apanhei a arma. O vento devastador começara a soprar, e com ele a ave se agitou. Firmei a arma na mão e procurei mirar o alvo. Uma tarefa nada fácil, pois a coisa fazia voltas na sala numa rapidez que me deixava tonto. Disparei o primeiro tiro, e como era de se esperar, errei; o que acabei acertando mesmo foi um lustre pendurado no centro da sala. Disparei mais três vezes, sem sucesso. Num instante a casa se transformou num alarido incessante. Disparei um quinto tiro, e ele acertara algo. Não fora o corvo. A Debby, despertada pela confusão, aparecera na sala na hora errada, exatamente no momento do disparo, que para meu desespero foi de encontro ao seu peito.
   Uma hora amarga.
   Deixei cair a arma da mão, esqueci de tudo e corri em seu auxílio. Ajoelhei-me ao seu lado e senti seu sangue quente. Olhei em seus olhos e chorei, chorei como nunca antes. Seu olhar era um olhar de dor, e ainda assim belo, trazendo em seu interior uma paz que eu nunca mais seria capaz de sentir.
   Agora eu entendia e sentia verdadeiramente uma perda dolorosa, e com ela uma parte minha ia-se embora. Levantei furioso, excomungando a maldita ave e seu mestre, e depois de depositar minha ira em tudo que encontrei, saí ensandecido porta afora.
   Ainda berrava quando se fez dia.
   Nunca tivera ninguém ao meu lado, nem pai nem mãe ou qualquer parente que conhecesse; desde que me lembro fora sozinho, e agora tirara a vida da única pessoa que se importava comigo. O que faria agora? Eu não sabia. Talvez, por medo de pôr fim a minha própria vida, viver à deriva torcendo para que a morte logo me alcançasse. Que viesse corvo ou diabo agora! Eu não me importava. Não me importava com mais nada. Desolado, escolhi voltar para casa. Nada mais agora poderia me amedrontar. Já que tudo começara lá, que lá terminasse. Eu esperaria. Se era a intensão disso tudo me deixar louco, então obtivera êxito.
   Abri uma garrafa de uísque e pus-me a beber. O dia passou como um raio, e a noite o imitou. Não ouvi ou senti nada de anormal. Se o corvo aparecera para rir da minha desgraça, eu não lembrava. Aliás, não lembrava de nada, nem mesmo de como viera parar onde estava agora: na cadeia.
   Como era de se imaginar, fora preso por assassinato.
   Não me importei com defesa durante o período em que estive preso. A prisão era o de menos. O que realmente me torturava era o sentimento amargo de culpa. Não fiquei, porém muito tempo na cadeia. Depois do meu comportamento demasiadamente desequilibrado – derivado das aparições inexplicáveis do corvo, que volta e meia perfurava o silêncio da minha sala – fui transferido para um hospital psiquiátrico.
   Aquele lugar era tão bom quanto a prisão, a diferença era que agora eu não via mais grades e escuridão – a não ser em minha mente – e sim paredes brancas e luzes que me deixavam mais desorientado do que já estava.
   Tudo piorou quando o corvo voltou a me visitar.
   Eu não comia ou dormia, estava vivendo num pesadelo de dor. E além da criatura, a lembrança do acidente com a Debby sempre me invadia os pensamentos, fazendo-me ora imaginar se tudo não passara apenas de um pesadelo, que bastava eu acordar e tudo voltaria a ser como antes, que eu finalmente poderia dizer-lhe que a amava e viver feliz ao seu lado, ora fazendo-me cair numa loucura inexplicável, misturando fantasia com realidade.
   Em tudo que eu via agora estava o crocitar odioso da ave, e juntamente com isso sua imagem negra e repentina a me encarar calmamente, com aquele olhar de morte.
   Fazia agora dois meses desde o acidente com a Debby – os piores da minha vida. Aliás, eu já nem sabia mais se estava morto ou vivo, ou os dois. Já não lembrava mais de quem eu era ou de onde estava. Permanecia agora preso na loucura da minha mente, acorrentado pela escuridão.
   Uma noite, depois de terem me dopado ou algo assim, eu estava imerso num torpor sem igual. Borrões passavam pela minha mente, eu não sentia meu corpo, não comandava meus membros ou impulsionava qualquer pensamento – estava morto, mas com vida.
   Uma brisa leve soprou pela pequena janela do quarto; por um instante me fez bem, senti um conforto e bem-estar que não sentia há muito tempo. Mas logo isso se esvaiu. A brisa se transformou num vento forte, eu forcei o pescoço por cima dos ombros e olhei para um dos lados da cama. Ali, imóvel e sinistro, estava o corvo, me observando intensamente. Eu o encarei. Nossos olhares seguraram-se intensamente, travando uma íntima batalha de ódio, como se ligados por uma indestrutível linha de aço.
   Num instante vi a luz do quarto se extinguir; pouco a pouco uma sombra, a mesma sombra que aparecera na minha casa naquele dia, começara a crescer e engolir tudo à minha volta. Por fim, tudo se apagou e mergulhou num negro profundo. Eu não via mais o corvo, mas sabia de alguma forma que ele continuava a me observar. Poucos segundos depois, que pareceram-me uma eternidade, eu divisei dois pontos vermelhos no escuro, o bastante para eu saber que se tratavam dos olhos que tanto me perseguiram nos últimos tempos.
   Barulhos de tumulto ecoaram na escuridão, parecia que eu estava no meio de uma guerra de ira e desespero. Em meio a isso vi, numa grande rapidez, dois pontos vermelhos avançarem em minha direção. Chocaram-se com meus olhos, fazendo minhas pálpebras se fecharem assim que senti o impacto de algo como um canivete perfurá-los e em instantes, estraçalhá-los.
   Caí ao chão cego, gritando de dor. E enquanto eu me debatia, senti novamente o bico do corvo me golpear, avançando sobre meu corpo como abutres sobre uma carniça. Em meio a dor e o desespero, senti aos poucos a força deixar meu corpo. Fiquei no chão, desolado, nadando numa poça de sangue à minha volta. Em meu estado de agonia, lembrei da Debby, o último pensamento que me veio à cabeça naquele momento. Depois se fez repentino silêncio, para depois uma gargalhada maligna cortá-lo e reverberar pelo quarto, sumindo logo depois, deixando-me finalmente em paz.
   E este fora o fim do pobre Jim Cavezell, um homem comum, com uma vida comum, mas que tivera a sorte de cruzar com um corvo que certamente não era nada comum.
                                               
                           * * *
   Mas agora você deve está se perguntando como eu consegui concluir esta história, já que para isso eu teria que estar vivo; bem, talvez eu seja agora um espírito perturbado que vaga por aí sem paz ou descanso, e que agora está ao seu lado, te observando intensamente, como fizeram comigo tantas vezes, se divertindo com o assombro que agora surgira no seu rosto.



Publicado no site: O Melhor da Web em 02/03/2018
Código do Texto: 136678
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